Convulsão durante a menstruação: médicos suspeitam de endometriose cerebral
Relato publicado no Journal of Clinical Medicine descreve mulher de 48 anos que apresentava crises epilépticas associadas ao ciclo menstrual; exames identificaram uma lesão no hipocampo, e os sintomas desapareceram após tratamento hormonal
Uma mulher de 48 anos apresentou crises epilépticas recorrentes que ocorriam exclusivamente durante a menstruação. O padrão dos episódios levou médicos a investigarem uma possível forma de endometriose cerebral, condição extremamente rara em que tecidos semelhantes aos encontrados no revestimento interno do útero estão presentes no sistema nervoso central.
O caso foi descrito em um estudo publicado em setembro de 2026 no Journal of Clinical Medicine. A paciente também relatava episódios de perda de memória de curto prazo, e exames de ressonância magnética identificaram uma lesão no hipocampo direito, região do cérebro relacionada à formação de memórias.
Apesar dos resultados dos exames e da melhora após o tratamento hormonal, os pesquisadores ressaltaram que não foi possível confirmar definitivamente a origem da lesão. Como uma biópsia foi considerada arriscada devido à localização, o diagnóstico permaneceu como uma suspeita de endometriose cerebral.
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Publicado em 2026-10-23 11:16:03O que é endometriose cerebral?
A endometriose é uma doença crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio, que reveste a parte interna do útero, fora da cavidade uterina. A condição afeta principalmente estruturas da região pélvica, mas também pode atingir outros órgãos.
Em casos excepcionalmente raros, o tecido pode estar presente no sistema nervoso central. A manifestação cerebral é pouco documentada na literatura médica e pode ser difícil de identificar, porque os sintomas e as alterações observadas nos exames de imagem também podem ocorrer em outras doenças neurológicas.
Dependendo da localização das lesões, a endometriose cerebral pode estar associada a manifestações como convulsões, dores de cabeça e alterações neurológicas. A relação entre os sintomas e o ciclo menstrual pode ajudar os médicos a considerar essa possibilidade durante a investigação.
Por que as convulsões aconteciam durante a menstruação?
No caso descrito, a paciente mantinha um registro dos episódios e do ciclo menstrual durante seis meses. O acompanhamento mostrou que as crises aconteciam exclusivamente durante o sangramento menstrual.
Esse padrão é compatível com a chamada epilepsia catamenial, termo utilizado para descrever a piora ou a ocorrência de crises epilépticas em determinados períodos do ciclo menstrual.
As oscilações hormonais ao longo do ciclo podem influenciar a atividade cerebral e a ocorrência de crises em algumas pessoas com epilepsia. Entretanto, a coincidência entre os episódios e a menstruação não confirma, por si só, a presença de endometriose no cérebro.
No caso analisado, a associação entre as crises e o ciclo menstrual, somada à lesão identificada na ressonância magnética, levou os pesquisadores a considerar a endometriose cerebral entre as possíveis explicações.
Como foi o diagnóstico?
A primeira ressonância magnética, realizada em agosto de 2019, identificou uma alteração no hipocampo direito. Em exames posteriores, os médicos observaram uma área de aproximadamente 11 por 10 milímetros com realce após a administração de contraste.
As imagens levantaram diferentes hipóteses, incluindo alterações do desenvolvimento cerebral, processos infecciosos e lesões tumorais. A endometriose cerebral também foi considerada, mas os resultados dos exames não permitiram estabelecer uma causa definitiva.
A paciente não apresentava sintomas típicos de endometriose pélvica, como dor menstrual intensa, dor durante relações sexuais ou dor pélvica cíclica. A ausência dessas manifestações, contudo, não foi suficiente para descartar a possibilidade de acometimento fora da região pélvica.
O que aconteceu após o tratamento?
Segundo o relato, a paciente recebeu inicialmente medicamentos para controlar as crises epilépticas, mas os episódios persistiram. Posteriormente, foi submetida a tratamento hormonal com progestágenos, incluindo desogestrel e dienogeste.
Após a terapia, os sintomas neurológicos desapareceram, e o tratamento antiepiléptico foi suspenso. Uma ressonância magnética realizada em março de 2026 também mostrou redução acentuada ou desaparecimento da alteração anteriormente observada no hipocampo direito.
Os pesquisadores consideraram a evolução clínica e radiológica compatível com a hipótese de endometriose cerebral. No entanto, destacaram que a resposta ao tratamento não comprova, isoladamente, a origem endometriótica da lesão.
Uma condição rara e de diagnóstico difícil
A endometriose cerebral é uma manifestação excepcionalmente rara da doença. O estudo publicado em 2026 identificou oito relatos de casos na literatura científica ao revisar publicações anteriores sobre a condição.
A investigação também evidencia os desafios do diagnóstico: as alterações nas imagens podem se parecer com as de outras doenças, e a confirmação por análise de tecido nem sempre é possível ou segura.
Por isso, os autores destacam a importância de avaliar a relação entre os sintomas neurológicos e o ciclo menstrual, acompanhar a evolução das lesões por exames de imagem e integrar avaliações de diferentes especialidades médicas.
O relato contribui para o conhecimento sobre uma manifestação incomum da endometriose, mas, por se tratar de um caso isolado e sem confirmação histológica, não permite estabelecer conclusões definitivas sobre a frequência da doença, seus mecanismos ou a eficácia do tratamento em outros pacientes.
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo