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Durante muito tempo, aprendemos a tratar descanso como improdutividade e silêncio como ausência de movimento. A lógica contemporânea transformou velocidade em valor moral. Quem responde rápido parece mais eficiente. Quem produz sem pausa parece mais admirado. Quem permanece ocupado o tempo inteiro passa a acreditar que está vivendo de forma correta. No meio disso, muitas pessoas deixaram de perceber o próprio corpo, a própria respiração e até o próprio pensamento.
Tenho observado um fenômeno curioso nos últimos anos. Pessoas que antes buscavam apenas soluções imediatas para a ansiedade começaram a procurar experiências manuais. Algumas voltaram a desenhar. Outras passaram a bordar, pintar, costurar, modelar argila ou montar quebra-cabeças. À primeira vista, pode parecer apenas um hobby. Mas existe algo mais profundo acontecendo nesse retorno.
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Publicado em 2026-07-01 04:00:16A ansiedade possui relação direta com a antecipação. A mente ansiosa tenta prever cenários, controlar possibilidades e evitar riscos futuros. Ela abandona o presente para tentar organizar aquilo que ainda não aconteceu. O problema é que o corpo não consegue sustentar esse funcionamento continuamente sem entrar em estado de exaustão.
Quando alguém costura, desenha ou pinta, existe uma mudança importante. A experiência manual exige permanência. O pensamento deixa de circular apenas em hipóteses abstratas e passa a acompanhar um movimento concreto. A mão precisa seguir um ritmo. O olhar precisa observar detalhes. A atenção deixa de ser sequestrada por dezenas de estímulos simultâneos.
Nossas mãos talvez carreguem uma inteligência emocional que esquecemos de escutar. Durante anos, ensinamos o corpo a apenas produzir, digitar e acelerar. Agora, muitas pessoas começam a perceber que existe algo profundamente humano em criar sem urgência
Existe um aspecto que considero central nessa discussão. Atividades manuais devolvem percepção de tempo. O universo digital fragmentou nossa relação com a continuidade. Quase tudo hoje acontece de maneira instantânea. Rolamos telas sem pausa. Consumimos imagens sem permanência. Interrompemos conversas para responder notificações. O cérebro passou a operar em estado de dispersão contínua.
O trabalho manual produz outra lógica. Existe começo, meio e fim. Existe construção gradual. Existe espera. Existe erro. Existe repetição. E talvez seja exatamente isso que tantas pessoas estejam procurando sem perceber. Não apenas distração, mas uma experiência emocional que reorganize o ritmo interno.
Também existe algo importante na relação entre criação manual e emoção. Nem todo sofrimento consegue ser traduzido racionalmente. Algumas experiências internas ainda não possuem linguagem. Em muitos casos, o corpo encontra caminhos antes da consciência. A arte manual permite acessar conteúdos que permanecem difíceis de explicar verbalmente.
Vejo isso com frequência clínica. Pessoas que chegam extremamente aceleradas começam a relatar mudanças sutis depois de incorporar práticas simples no cotidiano. Não porque bordar elimine a ansiedade ou porque desenhar resolva a depressão. Não se trata de romantizar o sofrimento psíquico. O que acontece é outra coisa. Essas experiências criam pausas cognitivas. Elas interrompem o excesso de estímulo. Elas reduzem a hiperatividade mental por alguns instantes.
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Outro ponto importante é que muitas dessas práticas acontecem coletivamente. Oficinas de cerâmica, encontros de pintura ou grupos de bordado criam formas de convivência menos mediadas por performance. As pessoas voltam a ocupar espaços presenciais sem precisar transformar tudo em produtividade ou exposição.
Existe uma solidão silenciosa atravessando a vida contemporânea. Muitas pessoas passam o dia inteiro conectadas e, ainda assim, emocionalmente isoladas. O encontro manual cria uma experiência diferente porque desacelera a comparação. Enquanto as mãos trabalham, a necessidade de parecer impecável perde força.
Talvez por isso tanta gente esteja retornando a atividades que antes eram vistas como secundárias. Existe uma tentativa coletiva de recuperar contato com presença, ritmo e percepção sensorial. Não como fuga da realidade, mas como possibilidade de permanecer nela sem adoecer.
Pensei muito nisso ao observar a proposta da Bienal de Veneza para 2026. Em uma exposição de escala internacional, surgem espaços concebidos para descanso e instalações que convidam o visitante a pausar, respirar, escutar e permanecer diante da obra. Isso me parece um sinal importante do nosso tempo. Quando até a arte, frequentemente atravessada pela urgência de ver, circular e interpretar, começa a criar espaços para repouso, estamos diante de uma linguagem cultural que reconhece o esgotamento contemporâneo.
Talvez a pausa tenha deixado de ser apenas uma necessidade íntima e tenha se tornado uma questão coletiva. Permanecer diante de uma obra, permitir que um som, uma imagem, um cheiro ou uma repetição corporal nos atravesse, também é uma forma de recuperar presença. O mesmo acontece quando alguém borda, pinta, desenha ou costura. A mão desacelera aquilo que a mente tentou acelerar demais.
Nossas mãos talvez carreguem uma inteligência emocional que esquecemos de escutar. Durante anos, ensinamos o corpo a apenas produzir, digitar e acelerar. Agora, muitas pessoas começam a perceber que existe algo profundamente humano em criar sem urgência. Talvez o que esteja faltando não seja apenas descanso. Talvez seja vínculo com aquilo que ainda consegue nos manter presentes.
Maria Klien é psicóloga.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos