Comercialização de fertilizantes no Brasil tem atraso relevante
Cerca de 35% do mercado ainda precisa ser fechado, afetando país que importa mais de 80% do insumo
O atraso na compra de fertilizantes para a próxima safra começa a preocupar o setor agrícola brasileiro. Em entrevista à CNN, Felipe Pecci, vice-presidente comercial da Mosaic, afirmou que o ritmo de comercialização está entre 10 e 15 pontos percentuais abaixo da média histórica, pressionado pela volatilidade geopolítica, alta dos custos e restrições de crédito.
Atualmente, cerca de 65% do mercado foi negociado, enquanto 35% ainda precisa ser fechado — um atraso considerado relevante para um país que importa mais de 80% dos fertilizantes que consome.
“Já começamos a observar um estresse logístico. Existe tempo de mar, line-up de portos, e boa parte dessas operações acaba se concentrando no segundo e terceiro trimestre. É um atraso preocupante”, afirmou Pecci.
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Publicado em 2026-05-26 04:02:12Segundo o executivo, o cenário internacional vem alterando o comportamento dos produtores rurais, que passaram a adiar decisões de compra diante da instabilidade dos preços e das incertezas sobre oferta global.
Geopolítica pressiona cadeia global
Nos últimos anos, conflitos envolvendo Rússia e Ucrânia e Oriente Médio passaram a impactar diretamente o mercado internacional de fertilizantes. As regiões representam entre 30% e 40% do NPK
(nitrogênio, fósforo e potássio) comercializado globalmente.
Para o Brasil, altamente dependente das importações, o efeito é imediato: aumento dos custos, dificuldade logística e pressão sobre as margens do produtor rural.
“Em cinco ou seis anos, as tensões geopolíticas têm escalado. Começou com Rússia e Ucrânia e agora no Oriente Médio”, disse Pecci.
O executivo destaca que o atraso nas compras cria um efeito em cadeia sobre portos, transporte e armazenamento, especialmente no Centro-Oeste, principal região produtora do país.
Produtor busca eficiência e reduz aplicações
Diante da alta dos custos, produtores têm intensificado análises mais detalhadas de solo para entender exatamente quais nutrientes precisam aplicar e onde podem reduzir gastos.
O movimento tem impulsionado principalmente o interesse em fósforo (P2O5) e em soluções biológicas complementares aos fertilizantes tradicionais.
“Os produtores estão buscando análises mais profundas dos solos para saber exatamente o que precisam aplicar e quanto conseguem economizar”, explicou.
Segundo Pecci, esse movimento não reduz a dependência brasileira das importações, mas pode aumentar a competitividade do agro ao elevar a eficiência do uso dos insumos.
"Para acompanhar esse momento, passamos a investir em agricultura de precisão, plataformas digitais e soluções biológicas capazes de aumentar a eficiência do uso dos nutrientes no campo", afirmou.
Entre os movimentos recentes da Mosaic está o lançamento da linha BioBlend, que combina fertilizantes com aditivos biológicos voltados à ativação da microbiota do solo. A empresa também intensificou o monitoramento da cadeia de suprimentos e o pré-posicionamento de estoques, buscando reduzir riscos de abastecimento diante das incertezas geopolíticas e logísticas globais.
Explosão no preço do enxofre agrava cenário
Outro fator de preocupação para o setor é a disparada no preço do enxofre, matéria-prima fundamental para a produção de fertilizantes fosfatados.
O produto, que historicamente custava cerca de um terço do valor do MAP (fosfato monoamônico), ultrapassou a própria cotação do fertilizante.
“O enxofre saiu de cerca de US$ 150 por tonelada no fim do ano passado para mais de US$ 1 mil por tonelada”, afirmou.
Além dos conflitos geopolíticos e das dificuldades logísticas no Oriente Médio, o insumo passou a ser disputado também pela indústria de transição energética, usada na produção de níquel, baterias e carros elétricos.
Já o MAP avançou de aproximadamente US$ 650 para cerca de US$ 900 por tonelada.
Crédito mais caro limita compras
A restrição no acesso ao crédito rural também tem contribuído para o atraso nas negociações. Segundo a Mosaic, juros elevados e oscilações nos preços das commodities vêm reduzindo o poder de compra de parte dos produtores.
“Existem bolsões de demanda que não conseguirão comprar produtos. O mercado já observa aumento nos números de recuperações judiciais”, disse Pecci.
Para enfrentar o cenário, a Mosaic afirma que pretende ampliar parcerias com instituições financeiras e investir em agricultura de precisão e soluções biológicas, buscando reduzir a dependência dos ciclos mais voláteis do mercado global.
https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/gabriella-weiss/agro/por-que-o-brasil-precisa-importar-fertilizantes/