Eventual abertura de investigação contra Flávio Bolsonaro dependerá de análise da PGR e autorização do STF. (Foto: EFE/ Andre Borges)

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“Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” A mensagem é do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para o banqueiro Daniel Vorcaro, enviada em 22 de outubro de 2025. Menos de um mês depois, em 16 de novembro, Flávio escreveria mais uma vez ao fundador do Banco Master cobrando patrocínio para Dark Horse, o filme sobre a trajetória política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. No dia seguinte, Vorcaro foi preso pela primeira vez. Dois dias depois, o Banco Central liquidou o Master.

As conversas, reveladas pelo Intercept Brasil em maio, mostram o grau de intimidade entre o senador e o banqueiro investigado. Flávio convida Vorcaro para um jantar “totalmente reservado” com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh, nomes escalados para a produção. “Quer fazer na minha casa?”, responde Vorcaro. Em áudio, o senador pressiona pela liberação de recursos: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus… Os caras, pô! Renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim.”

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Nada do que veio a público até aqui caracteriza, do ponto de vista jurídico, um ato de corrupção por parte do senador. Flávio disse tratar-se de “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, com “zero de lei Rouanet”. Mas o caso já chegou às pesquisas, que mostram uma queda do pré-candidato do PL após o episódio. O senador, por sua vez, reagiu da tribuna: desafiou Vorcaro a comparecer a uma eventual CPI para falar da relação que o banqueiro mantinha com ele, com Lula e com o ministro Alexandre de Moraes. “Eu não tenho nada a temer, nada a esconder”, afirmou.

Para além da disputa eleitoral, o caso oferece uma discussão mais ampla: em um contexto no qual a separação entre o público e o privado não é clara, como definir o que é aceitável moralmente?

Um capitalismo de laços

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o que se vê no caso Master não cabe na moldura de um episódio isolado. “Não é um caso só de Flávio e Vorcaro. É de Vorcaro com inúmeros atores políticos, no Legislativo e até no Executivo”, afirma. O que veio a público até aqui seria, na sua avaliação, “apenas a ponta do iceberg”.

Prando ancora sua análise em um conceito que a literatura econômica brasileira já havia nomeado: o capitalismo de laços, ideia popularizada pelo economista Sérgio Lazzarini para descrever um padrão em que negócios se realizam menos por regras impessoais do que por relações pessoais cultivadas com método. Festas, viagens, hospitalidade, todos estes elementos fazem parte do caso de Vorcaro. Para Prando, o resultado foi “uma rede tentacular” capaz de capturar espaços do Estado para benefício do próprio banco.

As mensagens reveladas pelo Intercept, a relação do banqueiro com figuras como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e a estratégia de aproximação com integrantes do Supremo Tribunal Federal indicam algo que ultrapassa a anedota política. “A democracia, no Brasil e no mundo, sempre tentou criar barreiras de defesa em relação à força do poder econômico”, observa Prando. “É sempre uma tensão constitutiva da própria democracia.” A questão é o quanto essas barreiras seguem em pé.

Amigas inseparáveis

Antes de responder se há moralidade na política brasileira, é preciso enfrentar uma confusão filosófica que costuma contaminar o debate. Atribui-se a Nicolau Maquiavel a tese de que moral e política devem operar em esferas separadas, e usa-se essa atribuição para naturalizar comportamentos que, fora da política, seriam inaceitáveis.

Sérgio Cardoso, professor sênior do Departamento de Filosofia da USP e pesquisador do republicanismo renascentista, não aceita essa leitura. “Moralidade e política não se separam. Menos ainda para Maquiavel”, afirma à Gazeta do Povo. O que existe, segundo o pensador florentino, é uma hierarquia entre dois planos: o interesse geral, próprio do domínio público, se sobrepõe à moralidade ordinária da vida privada e a orienta. “Não há política sem visada da produção de direitos, para todos. Esta é a ética da política”, completa.

Reconhecer que a política tem uma ética própria não é abolir a moral. É elevá-la. Reduzi-la à ética privada, ou ignorá-la em nome de um pragmatismo de fachada, produz dois efeitos opostos e igualmente estéreis: o moralismo ingênuo, de um lado, e o cinismo da indistinção, do outro.

O problema brasileiro, para Cardoso, é menos de caráter individual do que de arquitetura institucional. “Os limites para o exercício do poder devem vir da vigência das instituições e do direito. São as instituições que contêm o egoísmo e a ganância dos indivíduos.” O Parlamento brasileiro, em sua leitura, opera com um funcionamento “muito degradado”, em que predominam interesses privados dos parlamentares e a busca pela permanência nos postos de poder.

O republicanismo renascentista que ele pesquisa, de Leonardo Bruni a Maquiavel, parte de uma intuição que contraria o moralismo individualista: a virtude cívica não nasce da pregação, mas das “boas leis” e das “boas instituições”. Maquiavel radicaliza ao sustentar que as boas leis só acontecem pela pressão popular contra os interesses dos “grandes”. Sem essa pressão, a captura do Estado é o desfecho natural — não uma anomalia.

O voto que talvez puna

Os números mais recentes sugerem que algo se move. O Datafolha desta sexta-feira mostra Lula com 40% contra 31% de Flávio no primeiro turno — a distância triplicou após o caso Dark Horse. A AtlasIntel já havia captado movimento semelhante. A história recente, no entanto, recomenda cautela antes de qualquer veredicto.

Prando lembra um caso paradigmático. Em 2002, uma fotografia de uma pilha de dinheiro em um escritório ligado à então pré-candidata Roseana Sarney bastou para inviabilizar suas pretensões presidenciais. O contexto era outro: uma sociedade ainda não hiperconectada, com informações circulando em ritmo mais lento. Hoje, o volume de dados pode tanto fulminar uma candidatura quanto dissolver o impacto de cada novo escândalo no seguinte.

É prematuro, na avaliação de Prando, decretar o fim da pré-candidatura do senador. Há uma parcela do eleitorado bolsonarista “muito resiliente” a denúncias. E há, do outro lado, uma rejeição expressiva ao governo Lula que opera a favor da oposição com ou sem o sobrenome Bolsonaro.

O senador tem reagido em duas frentes. Acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra a AtlasIntel, contestando a metodologia de uma pesquisa que, a seu ver, tentou induzir o eleitor a opinar contra sua candidatura. E partiu para o contra-ataque retórico ao pedir que Vorcaro explique publicamente os laços que mantinha não apenas com ele, mas com Lula e com Moraes — uma aposta de que o caso, ampliado, molhe todos os lados. Para Prando, a judicialização tende a ser contraproducente: “Quando uma pesquisa como essa passa a receber o ataque jurídico da pré-candidatura, ela acaba ganhando mais tração.”

O que falta

Nem tudo que é legal é moral. Além da letra fria da lei, há comportamentos reprováveis. Mas o respeito a esses limites depende de uma cultura de respeito ao interesse geral. O que falta ao Brasil para construir essa cultura?

Cardoso recusa a expressão “bem comum”. Considera-a “muito abstrata e frequentemente falaciosa”. Prefere falar em construção de igualdades. Algo que se faz no plano concreto, não como ideal moral abstrato. “A construção de uma cultura verdadeiramente política, voltada para a produção e o respeito a leis, supõe sobretudo manifestações populares por direitos universais e por sua efetiva vigência.”

A formulação inverte a ordem habitual. Não é a moralização da política que produz uma sociedade melhor, mas o avanço de direitos concretos que produz uma política mais decente. Na tradição que Cardoso pesquisa, a virtude cívica é efeito das instituições, não sua causa.

Prando chega a uma conclusão parecida por outro caminho: o caso atual, diz, “está muito ligado à cultura política brasileira, que é uma dificuldade enorme que nós temos no Brasil da indistinção entre os interesses públicos e privados”. Resolver essa indistinção exige mais do que punir um senador ou cassar uma candidatura. Exige instituições que funcionem, leis que se apliquem e uma sociedade que cobre — não apenas quando o escândalo estoura.

Ainda há muito a vir. Foram nove celulares apreendidos com Vorcaro. O próprio Flávio Bolsonaro antecipou que novos vídeos podem surgir. O senador tenta agora inverter o ônus ao convocar o banqueiro a falar de seus laços com Lula e Moraes. O desfecho contará menos sobre o destino de uma candidatura e mais sobre o país que o Brasil decidir ser.



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/caso-vorcaro-quem-define-o-que-e-moral-na-politica/