Caso AtlasIntel transforma metodologia de pesquisa em batalha eleitoral

Liminar contra a empresa amplia disputa sobre pesquisas eleitorais e abre debate sobre os critérios adotados pela Justiça Eleitoral

Luciana Amaral, , Brasília

A suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, transformou a metodologia do levantamento eleitoral em mais um capítulo da disputa pelo Palácio do Planalto. A decisão, que atende a pedido do Partido Liberal (PL) e questiona a forma como o instituto conduziu a pesquisa, abre discussões em torno da atuação da Justiça Eleitoral.

Nunes Marques determinou a suspensão do levantamento publicado em 19 de maio não por falhas formais de registro, motivo mais frequente em ações envolvendo pesquisas eleitorais, mas por suspeitas relacionadas à metodologia adotada e à possível indução dos entrevistados. Segundo o ministro, a estrutura e a aplicação do questionário podem ter influenciado a percepção dos eleitores e produzido respostas mais negativas em relação ao senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL).

Entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), há quem classifique como censura a tentativa do PL de retirar a pesquisa de circulação e quem lembre que a pesquisa já foi amplamente divulgada, sob uma espécie de domínio público agora.

Recomendamos para você

Para as pré-campanhas, as atenções se voltam para até onde o TSE pode avançar no escrutínio das metodologias utilizadas pelos institutos e que tipo de precedente a decisão pode estabelecer para novas contestações ao longo da corrida presidencial de 2026.

A pesquisa foi a primeira realizada após a revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master. O levantamento apontou avanço de Lula nas intenções de voto para o primeiro turno, queda de Flávio Bolsonaro e vantagem do petista em eventual segundo turno.

Aliados de Flávio argumentam que a pesquisa continha perguntas consideradas problemáticas e afirmam que um áudio divulgado pelo Intercept Brasil envolvendo o senador e Vorcaro teria sido reproduzido durante a entrevista. Na avaliação dos bolsonaristas, o conteúdo poderia ter influenciado a opinião dos participantes sobre o pré-candidato.

A AtlasIntel nega qualquer indução. O instituto sustenta que o áudio não integrou o questionário principal e foi apresentado apenas ao final da entrevista a participantes que optaram por registrar suas reações ao conteúdo. Segundo a empresa, os entrevistados não podiam retornar a perguntas anteriores nem alterar respostas já registradas.

Na decisão, Nunes Marques destaca que pesquisas anteriores da AtlasIntel não seguiram o mesmo formato e cita declarações do CEO do instituto, Andrei Roman. Para o ministro, Roman teria reconhecido o "viés político do conteúdo submetido aos entrevistados" e emitido juízo de valor sobre o potencial desgaste que o áudio poderia causar a Flávio Bolsonaro. As falas de Roman aconteceram após a realização e a divulgação pública da pesquisa.

A liminar determina que a AtlasIntel apresente documentação técnica complementar. O Ministério Público Eleitoral também deverá se manifestar sobre o caso. A expectativa é que o tema seja analisado pelo plenário do TSE nesta terça-feira (9).

O episódio ganhou ainda mais repercussão pelo caminho percorrido dentro da própria Corte. Menos de um mês após assumir a presidência do TSE e poucos dias depois da representação apresentada pelo PL, Nunes Marques alterou a regra de distribuição das ações de propaganda eleitoral relacionadas à disputa presidencial. A mudança incluiu o próprio presidente do tribunal e o ministro André Mendonça — ambos indicados ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro — entre os possíveis relatores dos processos.

Após um novo sorteio, a ação contra a AtlasIntel ficou sob a relatoria do próprio Nunes Marques, que posteriormente concedeu a liminar suspendendo a divulgação da pesquisa.

A controvérsia também ocorre em um momento mais delicado para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Desde a divulgação do levantamento, outras pesquisas passaram a apontar perda de apoio ao senador. Nos bastidores, o pré-candidato busca se distanciar de Daniel Vorcaro e reposicionar sua campanha, inclusive com a visita ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A decisão do TSE, porém, recolocou a relação entre Flávio e o ex-banqueiro no centro desta segunda-feira. Parlamentares do PT avaliam que o episódio reacende um tema que a campanha de Flávio tentava deixar para trás. Portanto, apontam que pode se tornar um tiro no pé dos próprios bolsonaristas.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/caso-atlasintel-transforma-metodologia-de-pesquisa-em-batalha-eleitoral/