O lançamento da nova camisa do Athletic Bilbao para a temporada 26-27 voltou a mostrar como uniformes de futebol podem ultrapassar o universo esportivo e entrar em debates políticos, culturais e históricos. O clube basco estampou na região da nuca um mapa de Euskal Herria, território cultural basco que inclui áreas da Espanha e da França, e provocou reações imediatas no cenário político espanhol.

Partidos de direita como PP, Vox e UPN criticaram o uniforme e acusaram o clube de promover uma visão política sobre a identidade basca. A UPN chegou a ameaçar medidas judiciais contra a equipe de Bilbao. O governo de Navarra, porém, afirmou não enxergar ilegalidade no uso do símbolo, destacando que o Athletic é uma entidade privada.

A polêmica recolocou em pauta a relação entre futebol, identidade regional e símbolos políticos. E o caso do Athletic está longe de ser isolado. Ao longo dos anos, clubes e seleções já enfrentaram crises diplomáticas, acusações ideológicas e até punições por causa de camisas e elementos gráficos utilizados em uniformes.

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Fiorentina e a “camisa da suástica”

Um dos episódios mais conhecidos aconteceu com a Fiorentina na temporada 92-93. O uniforme reserva produzido pela Lotto trazia formas geométricas no peito que, alinhadas lado a lado, criavam um desenho semelhante à suástica associada ao nazismo.

Inicialmente, a camisa parecia apenas seguir o padrão ousado dos anos 1990, com degradê roxo, detalhes geométricos e patrocínio da 7UP. Mas bastaram poucos jogos para que torcedores e imprensa percebessem a associação visual.

Fiorentina e Lotto divulgaram nota afirmando que o efeito era uma coincidência ótica, mas a repercussão negativa levou o clube a abandonar imediatamente o uniforme. As peças restantes foram recolhidas e algumas chegaram a ser queimadas por torcedores.

Dentro de campo, a temporada terminou de forma melancólica para a equipe italiana, que acabou rebaixada mesmo contando com Gabriel Batistuta no elenco.

Fiorentina tinha uma padronização que formava suásticas no uniforme • Alessandro Sabattini/Getty Images

Alemanha mudou fonte após associação ao nazismo

Décadas depois, a Federação Alemã de Futebol enfrentou situação semelhante ao precisar alterar a tipografia dos números da seleção para a Eurocopa. O número 44 gerou críticas por lembrar visualmente a sigla “SS”, ligada à tropa nazista responsável por crimes durante a Segunda Guerra Mundial.

A entidade afirmou que a semelhança não havia sido percebida durante a criação do uniforme desenvolvido pela Adidas. Após a repercussão, a marca suspendeu temporariamente a personalização das camisas em sua loja oficial.

Camisa da Seleção da Alemanha • Reprodução / Adidas

Espanha e o uniforme associado à República

A seleção da Espanha também viveu uma forte controvérsia antes da Copa do Mundo de 2018. O uniforme desenhado pela Adidas trazia detalhes em azul que, vistos à distância, pareciam roxos, remetendo à bandeira da Segunda República Espanhola.

O tema ganhou força em meio às tensões políticas envolvendo movimentos separatistas e debates sobre monarquia no país. O evento oficial de apresentação da camisa chegou a ser cancelado diante da repercussão.

A fornecedora negou qualquer intenção política e afirmou que o design era inspirado no uniforme utilizado pela Espanha na Copa de 1994.

Cor nos uniformes da Seleção da Espanha causou polêmica • Divulgação

Disputa territorial virou caso jurídico na África

Em 2024, o RS Berkane protagonizou um dos casos mais tensos recentes envolvendo uniformes. A equipe marroquina utilizou uma camisa com um mapa que incluía o Saara Ocidental como parte de Marrocos.

O tema é alvo de disputa histórica no norte da África e gerou forte reação da Argélia durante a Copa da Confederação Africana. Autoridades argelinas chegaram a confiscar os uniformes do clube, partidas foram canceladas e o caso terminou levado ao Tribunal Arbitral do Esporte.

Berkane incluía o território do Saara Ocidental no uniforme • @RSBfootball/X

Palestino e o mapa da Palestina histórica

Outro clube frequentemente envolvido em debates políticos é o Palestino. Em 2014, a equipe chilena foi punida após substituir o número 1 do uniforme pelo mapa da Palestina histórica.

A discussão reapareceu em 2026, quando o clube lançou uma camisa estampando novamente símbolos ligados ao território palestino antes da criação do Estado de Israel, em 1948. O embaixador israelense no Chile criticou duramente o uniforme e afirmou que o desenho ignorava a existência de Israel. Vale ressaltar que o Chile possui a maior comunidade de palestinos fora do Oriente Médio.

Detalhe do mapa ficava “escondido” no número um na camisa dos jogadores • Guido Manuilo/LatinContent via Getty Images

Ucrânia irritou a Rússia antes da Euro

A camisa da seleção da Ucrânia para a Euro 2020 também virou tema diplomático. O uniforme mostrava o mapa do país incluindo a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, além do slogan “Glória à Ucrânia”.

Autoridades russas classificaram o design como provocação política e criticaram tanto o mapa quanto os slogans patrióticos presentes na camisa. A UEFA, porém, aprovou oficialmente o uniforme.

Camisa da Ucrânia irritou os russos • Reprodução

Barcelona e a braçadeira catalã

Nem mesmo braçadeiras escaparam das discussões políticas no futebol europeu. Em 2024, novas regras da IFAB determinaram que capitães deveriam utilizar faixas de cor única, salvo autorização específica das competições.

A mudança afetou o Barcelona, que tradicionalmente utilizava uma braçadeira com a “senyera”, bandeira da Catalunha. Após polêmica, o clube conseguiu autorização da LaLiga para manter o símbolo regional.

Braçadeira de capitão do Barcelona • Robbie Jay Barratt – AMA/Getty Images



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/camisas-de-futebol-polemicas-relembre-casos-historicos-envolvendo-politica/