Cafeicultor eleva renda e produtividade com práticas regenerativas
Projeto piloto no Brasil garante ganhos de R$ 25 mil por hectare e aumento de 46% na produtividade em dois anos
A sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar uma necessidade estratégica na cafeicultura mundial. Diante dos impactos crescentes provocados pelas mudanças climáticas sobre a produção agrícola, empresas vêm intensificando investimentos em iniciativas capazes de aumentar a resiliência das lavouras e assegurar o fornecimento futuro de café.
É o caso da JDE Peet's, uma das maiores companhias globais do setor cafeeiro, que mantém um programa voltado à agricultura regenerativa e ao fortalecimento das comunidades produtoras. Presente em mais de 100 países e responsável por marcas reconhecidas mundialmente, como Jacobs, Douwe Egberts, Peet's, L'OR, Senseo, Tassimo, Moccona e Pilão, a JDE Peet´s considera a sustentabilidade um dos pilares para a continuidade de seus negócios.
Os investimentos em agricultura regenerativa fazem parte do programa global Common Grounds, principal plataforma de sustentabilidade da JDE Peet's. A iniciativa reúne projetos desenvolvidos em diferentes países produtores de café e tem como objetivo fortalecer a resiliência da cadeia produtiva, melhorar as condições de vida dos agricultores e reduzir os impactos ambientais da produção.
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Publicado em 2026-05-31 09:26:21Segundo a empresa, o programa está estruturado em três pilares: fornecimento responsável, redução da pegada ambiental e desenvolvimento das comunidades produtoras. As iniciativas incluem treinamento de agricultores, monitoramento da qualidade do solo, incentivo ao uso de bioinsumos, conservação de recursos hídricos, sucessão familiar no campo e adoção de práticas de manejo sustentável.
"Fortalecer a resiliência da cadeia produtiva do café é uma prioridade. O futuro da atividade depende da capacidade dos produtores de enfrentar os desafios climáticos e continuar produzindo com rentabilidade", destaca Bruno Ribeiro, gerente de sustentabilidade da companhia.
Mudanças climáticas
Geadas severas, períodos prolongados de estiagem, chuvas irregulares e ondas de calor vem marcando a produção de café nos últimos ano. Esses fenômenos afetam diretamente o desenvolvimento das lavouras, reduzem a produtividade e aumentam os custos de produção. E é neste contexto que a agricultura regenerativa surge como uma ferramenta de resiliência.
Mais do que preservar recursos o conceito busca restaurar a saúde dos ecossistemas agrícolas por meio de ações que melhoram a fertilidade do solo, ampliam a biodiversidade e fortalecem a capacidade das plantas de resistirem a condições adversas.
"A sustentabilidade só funciona quando gera benefícios concretos para quem está no campo. O produtor precisa preservar os recursos naturais, mas também precisa ser economicamente viável e competitivo", ressalta Ribeiro.
No Brasil, com o objetivo de validar essas práticas em diferentes realidades produtivas, foi implantado um projeto piloto envolvendo 30 propriedades localizadas em três das principais regiões produtoras de café arábica do país: Sul de Minas, Cerrado Mineiro e Alta Mogiana, contemplando propriedades de diferentes perfis, desde pequenas fazendas familiares até sistemas altamente tecnificados.
"Muitos produtores começaram de forma modesta e foram ampliando as áreas conduzidas sob manejo regenerativo após observarem os primeiros resultados", conta Natália Vasconcelos, gerente de sustentabilidade da Syngenta, uma das parceiras do projeto
Tradição familiar
Uma das propriedades que se tornou referência na iniciativa pertence ao cafeicultor Roberto Marchi, com longa tradição na produção de café. Proprietário de uma fazenda com 57 anos de história, ele sempre buscou incorporar novas tecnologias "sem perder os princípios que construíram nossa história", conta.
Segundo ele, a agricultura regenerativa aplicada nos cerca de 18 hectares que mantém em produção, trouxe uma nova perspectiva sobre o manejo da propriedade, especialmente em relação à saúde do solo e à sustentabilidade de longo prazo.
Entre os resultados mais expressivos observados no projeto está a recuperação da qualidade do solo. Análises realizadas em profundidades de até 80 centímetros demonstraram melhorias significativas nos indicadores físicos, químicos e biológicos dos cafezais, que podem ser percebidos por meio da correção da acidez do solo; melhor aproveitamento dos nutrientes aplicados; aumento da atividade microbiológica e desenvolvimento mais profundo e vigoroso das raízes das plantas.
Outro avanço importante foi registrado no controle dos nematoides, considerados atualmente uma das principais ameaças à produtividade dos cafezais brasileiros.
Os benefícios observados não ficaram restritos aos aspectos agronômicos. Avaliações sensoriais realizadas após a colheita indicaram evolução gradual na qualidade dos cafés produzidos na fazenda de Roberto.
Isso porque plantas mais equilibradas fisiologicamente conseguem atravessar períodos de estresse climático com menor impacto sobre o enchimento e a maturação dos frutos, refletindo diretamente na qualidade final da bebida. Na fazenda de Roberto Marchi, o projeto foi implantando em meados de 2024. Em cerca de dois anos os resultados impressionam: a produtividade cresceu 46%, para 58,5 sacas por hectare, a pontuação da bebida melhour 6,38%, para 89,19 e o incremento da renda alcançou R$ 25 mil por hectare
Para a indústria, os investimentos em agricultura regenerativa representam mais do que uma agenda ambiental. Trata-se de uma estratégia para garantir a continuidade da produção em um cenário de crescente demanda global e desafios climáticos cada vez mais complexos.
Os resultados iniciais do projeto reforçam a percepção de que práticas regenerativas podem contribuir simultaneamente para aumentar a produtividade, melhorar a qualidade dos grãos e fortalecer a sustentabilidade econômica das propriedades rurais.