A Brazil Iron descarta que o chamado “ferro verde” vá competir diretamente com o minério de ferro tradicional no mercado global.
Em entrevista ao Mapa da Mina, programa dedicado ao setor mineral, Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da Brazil Iron, afirmou que o produto terá um mercado próprio, voltado a siderúrgicas e indústrias pressionadas a reduzir emissões de carbono.
Segundo ele, a tese da empresa não é substituir integralmente o minério de ferro usado atualmente pela indústria siderúrgica, mas ocupar uma fatia específica da cadeia, associada à descarbonização da produção de aço.
Recomendamos para você
Brazil Iron diz ter US$ 30 bi em offtakes “amarrados” com Ásia e Europa
Em entrevista à CNN, Emerson Souza, vice-presidente de Relações Institucionais da Brazil Iron, af...
Publicado em 2026-06-17 19:45:21
Lula descarta drama após empate do Brasil e cita apoio a seleções africanas
Presidente afirmou que Marrocos é o adversário mais forte do grupo da Seleção e disse torcer qua...
Publicado em 2026-06-17 18:23:14
Geadas e temperatura de 1°C são registradas em Monte Verde (MG); veja fotos
Frio intenso continuará pelo estado até a próxima quarta-feira (18)...
Publicado em 2026-06-17 15:15:15“Se a gente pensar no mercado global do minério de ferro, esse produto não vai se posicionar no mesmo patamar que o minério de ferro tradicional. Não vamos ter a substituição do minério de ferro original 100%. O que vai acontecer é a ampliação da participação do ferro verde na fabricação do aço por algumas questões”, disse.
A Brazil Iron tenta desenvolver na Bahia um projeto integrado de mineração e produção de HBI, sigla em inglês para “Hot Briquetted Iron”, ou ferro briquetado a quente. O produto é uma forma compactada de ferro reduzido diretamente, usado como insumo pela indústria siderúrgica.
Na prática, trata-se de um produto intermediário entre o minério de ferro e o aço.O HBI já passa por uma etapa industrial anterior, com maior valor agregado, e pode ser usado em rotas menos intensivas em carbono do que o processo tradicional baseado em carvão.
Souza argumenta que o mercado para esse tipo de produto será puxado por exigências climáticas, políticas públicas e compromissos de descarbonização assumidos por siderúrgicas e grandes consumidores industriais.
Um dos principais exemplos é o CBAM, mecanismo de ajuste de carbono na fronteira da União Europeia. A regra busca cobrar uma espécie de preço sobre as emissões embutidas em determinados produtos importados pelo bloco, incluindo ferro e aço. A Comissão Europeia define o mecanismo como uma forma de assegurar que um preço tenha sido pago pelas emissões de carbono incorporadas em mercadorias importadas.
Na avaliação da Brazil Iron, instrumentos desse tipo tendem a aumentar o interesse de siderúrgicas por insumos de menor emissão, especialmente em mercados como Europa e Ásia.
O executivo também citou o Japão como exemplo de país que tem criado políticas para financiar a descarbonização da indústria. O país tem usado instrumentos públicos, incluindo subsídios ligados à transição climática, para apoiar investimentos em novas rotas siderúrgicas, como fornos elétricos e processos menos dependentes de carvão.
Apesar do otimismo da empresa, ainda existem dúvidas no mercado sobre o tamanho real da demanda e, principalmente, sobre a disposição dos compradores em pagar mais caro por produtos de menor emissão.
A chamada “premiação verde” é um dos pontos centrais dessa discussão.
Em tese, siderúrgicas e consumidores finais poderiam aceitar pagar mais por insumos de baixa emissão para cumprir metas climáticas, atender regras regulatórias ou vender produtos com menor pegada de carbono. Na prática, porém, essa disposição ainda depende do avanço da agenda ESG, da pressão de governos, da regulação de carbono e da demanda de setores como automóveis, construção civil e bens industriais.
Grandes siderúrgicas europeias já apontaram que o custo da transição continua sendo um obstáculo e que o mercado ainda nem sempre aceita pagar prêmios suficientes por aço de menor emissão.
Por isso, embora o ferro verde seja visto como uma rota promissora para reduzir emissões da siderurgia, sua viabilidade comercial em larga escala ainda depende de uma combinação de fatores: regulação climática mais dura, crédito público, compradores dispostos a pagar prêmio, certificação confiável de emissões e contratos de longo prazo.
Souza argumenta, no entanto, que os próprios contratos de venda futura negociados pela Brazil Iron mostram que existe interesse concreto pelo produto.
A empresa afirma ter dois contratos de offtake “muito amarrados”, equivalentes a dez anos de produção do projeto e avaliados em aproximadamente US$ 30 bilhões. Segundo o executivo, os compradores estão localizados principalmente na Ásia e na Europa.
Contratos de offtake são acordos de compra futura firmados antes do início da produção. No setor mineral, eles são considerados importantes para viabilizar projetos de grande porte, porque ajudam a comprovar demanda e podem dar mais segurança a financiadores, investidores e potenciais sócios.
“Tem siderúrgica e indústria final. Nossos compradores estão basicamente localizados na Ásia e na Europa. Esses são os mercados mais interessados nesse produto”, afirmou Souza.
A tese da Brazil Iron é que o ferro verde terá uma lógica comercial diferente da commodity tradicional. Enquanto o minério de ferro convencional segue muito ligado à demanda chinesa, ao teor do minério e ao ciclo global da construção e da indústria, o HBI de baixa emissão seria negociado em um mercado mais específico, associado à transição energética e à descarbonização da siderurgia.
O projeto da empresa está localizado na Bahia e prevê a integração entre mina, beneficiamento mineral, produção de pelotas e fabricação de HBI. A companhia estima investimento de US$ 5,7 bilhões.
A rota defendida pela empresa passa inicialmente pelo uso de gás natural, com menor emissão em relação ao processo tradicional a carvão. No futuro, a companhia afirma estudar a transição para hidrogênio verde e o uso de mecanismos de captura de carbono.
O projeto, no entanto, ainda precisa superar etapas decisivas antes de sair do papel. Entre os principais desafios estão o fechamento do financiamento, o avanço do licenciamento ambiental, a definição da infraestrutura logística, a contratação de energia e gás, a certificação da pegada de carbono do produto e a comprovação de que haverá mercado disposto a pagar pelo ferro de menor emissão.