Boom da IA coloca infraestrutura logística brasileira à prova

Em artigo à CNN Infra, Luiz Policarpo explica como inteligência artificial está provocando uma transformação no comércio internacional

A inteligência artificial está provocando uma transformação no comércio internacional que vai muito além da digitalização de processos e da automação de atividades. O crescimento dos investimentos em semicondutores, servidores e equipamentos tecnológicos está alterando a demanda por mercadorias, reorganizando cadeias de suprimentos e criando novas exigências para a infraestrutura responsável por movimentar esses produtos. O fenômeno coloca uma questão importante para o Brasil: estamos preparados para acompanhar uma expansão do comércio mundial cada vez mais orientada pela tecnologia?

A dimensão desse movimento aparece nas projeções divulgadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) em outubro de 2026. A entidade revisou de 1,9% para 3,9% sua estimativa de crescimento do volume do comércio global de mercadorias neste ano. A mudança foi impulsionada, principalmente, pela demanda por bens associados à inteligência artificial, responsáveis por 47% do crescimento do comércio mundial de mercadorias em valor no primeiro semestre. No mesmo período, as transações desses produtos cresceram 67% em relação ao ano anterior. Os números revelam que a expansão da IA já produz consequências concretas sobre a circulação internacional de bens.

O aspecto mais relevante desse fenômeno é que a economia digital continua profundamente dependente da infraestrutura física. Para que sistemas de inteligência artificial funcionem, é necessário fabricar processadores, produzir equipamentos, instalar servidores, construir data centers e garantir o abastecimento de componentes provenientes de diferentes países. Cada uma dessas etapas depende de transporte, armazenagem, desembaraço aduaneiro e coordenação logística. Quanto maior a demanda por tecnologia, maior também a necessidade de uma cadeia de suprimentos capaz de sustentar seu crescimento.

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Essa transformação ocorre em um cenário internacional marcado por incertezas. Tensões geopolíticas, alterações nas rotas comerciais e oscilações nos custos de transporte continuam influenciando as decisões das empresas. A própria OMC destaca que a resiliência do comércio mundial em 2026 esteve associada à capacidade de adaptação das cadeias globais diante das interrupções provocadas pelo conflito no Oriente Médio. O avanço dos investimentos em IA ajudou a compensar parte desses impactos, mas também evidenciou a importância de sistemas logísticos flexíveis e preparados para responder rapidamente a mudanças.

Para o Brasil, o cenário apresenta oportunidades e desafios. O país possui uma posição relevante no comércio internacional, especialmente no fornecimento de commodities agrícolas e minerais, mas precisa ampliar sua capacidade de acompanhar cadeias produtivas de maior intensidade tecnológica. Isso não significa necessariamente competir com os grandes fabricantes asiáticos de semicondutores, mas desenvolver condições logísticas que favoreçam a importação de equipamentos, a instalação de novas estruturas tecnológicas e a participação de empresas brasileiras em cadeias internacionais mais sofisticadas.

Nesse contexto, a infraestrutura portuária assume uma função estratégica. Os portos brasileiros são responsáveis pela movimentação de grande parte das mercadorias comercializadas internacionalmente e precisam responder a demandas cada vez mais diversificadas. Além da capacidade de movimentação de cargas, tornam-se relevantes a disponibilidade de terminais adequados, a integração com rodovias e ferrovias, a eficiência dos procedimentos aduaneiros e a previsibilidade das operações. Um sistema portuário competitivo não é apenas aquele que movimenta grandes volumes, mas o que consegue oferecer segurança e regularidade ao fluxo de mercadorias.

Entretanto, ampliar a capacidade física, embora indispensável, não será suficiente. Um dos principais desafios da logística brasileira está na fragmentação das informações entre os diferentes participantes de uma operação. Importadores, exportadores, transportadoras, terminais, agentes de carga e operadores logísticos frequentemente trabalham com sistemas e bases de dados que não se comunicam de maneira integrada. O resultado pode ser uma cadeia em que cada etapa funciona individualmente, mas o conjunto permanece sujeito a atrasos, retrabalho e decisões tomadas com informações incompletas.

É justamente nesse ponto que a inteligência artificial pode desempenhar um segundo papel nessa transformação. A mesma tecnologia que está impulsionando o crescimento do comércio internacional também oferece instrumentos para tornar sua operação mais eficiente. Modelos de análise preditiva podem contribuir para identificar riscos de atraso, comparar alternativas de transporte, antecipar variações de demanda e apoiar decisões sobre rotas, fornecedores e custos. O objetivo não é simplesmente automatizar atividades, mas ampliar a capacidade de planejamento das empresas.

Durante muito tempo, a gestão logística esteve concentrada na solução de problemas depois que eles aconteciam. Uma carga atrasava, um terminal apresentava restrições ou um frete sofria alteração, e as equipes precisavam reorganizar a operação para reduzir os prejuízos. Esse modelo reativo se torna cada vez menos adequado a um ambiente de comércio internacional caracterizado por maior velocidade e interdependência. A inteligência logística precisa evoluir para uma capacidade efetiva de antecipação, na qual dados e tecnologia ajudem a identificar problemas antes que comprometam prazos, custos e contratos.

Essa mudança também exige uma revisão da maneira como as empresas avaliam sua competitividade. O menor valor de frete nem sempre representa a alternativa economicamente mais vantajosa. Uma operação aparentemente mais barata pode gerar custos adicionais de armazenagem, interrupções no abastecimento ou atrasos na entrega de equipamentos essenciais. Em cadeias tecnológicas, nas quais diferentes componentes precisam chegar em momentos específicos para viabilizar a produção ou a instalação de estruturas, a previsibilidade pode ser tão importante quanto o preço contratado.

A discussão sobre infraestrutura logística, portanto, precisa incorporar uma visão mais ampla de eficiência. Investir em portos, rodovias, ferrovias e terminais é fundamental para ampliar a capacidade de movimentação do país. Mas também é necessário investir em conectividade, integração de informações, digitalização de processos e qualificação das decisões. A competitividade logística será cada vez mais determinada pela combinação entre infraestrutura física e capacidade de coordenar operações complexas.

O crescimento projetado pela OMC não significa que todos os países ou setores serão beneficiados na mesma proporção. A expansão do comércio de bens relacionados à IA tende a favorecer economias que já possuem participação consolidada nessas cadeias produtivas. Para o Brasil, aproveitar as oportunidades dependerá de decisões que vão além do aumento da movimentação de cargas. Será necessário criar condições para que empresas consigam importar, exportar, produzir e distribuir com maior eficiência, reduzindo os obstáculos que comprometem sua inserção internacional

O boom da inteligência artificial demonstra que a transformação digital não elimina a importância da infraestrutura tradicional. Pelo contrário, aumenta sua relevância e exige novos padrões de desempenho. O comércio mundial está sendo impulsionado por tecnologias capazes de processar volumes extraordinários de informação, mas continua dependendo de estruturas físicas para movimentar os equipamentos que tornam essa revolução possível.

O Brasil não precisa apenas de uma infraestrutura capaz de transportar mais mercadorias. Precisa de uma logística capaz de tomar decisões melhores, antecipar riscos e acompanhar a velocidade das novas cadeias globais. A oportunidade aberta pela inteligência artificial será aproveitada não somente pelos países que desenvolverem tecnologia, mas também por aqueles que conseguirem movimentá-la com eficiência. E é nessa combinação entre capacidade física e inteligência operacional que estará uma parte importante da competitividade brasileira nos próximos anos.

Luiz Policarpo é fundador e CEO da Einship*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião .


Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/boom-da-ia-coloca-infraestrutura-logistica-brasileira-a-prova/