O Banco Central evitou ceder a pressões e buscou um ponto “no meio do caminho” ao manter a Selic intocada, segundo economistas ouvidos pelo CNN Money.
Ao mesmo tempo que reforçou sua independência ao não seguir apelos do governo e aliados por corte de juros, o Copom (Comitê de Política Monetária) subiu a régua contra expectativas de elevação das taxas.
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Publicado em 2026-11-05 04:00:00“Está tentando ‘colocar a bola no chão’ dizendo: ‘olha, mercado, você está prevendo Selic de 15,5% na curva de juros no futuro. O cenário não é nem tanto para lá e nem tanto para cortar'”, pondera Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco.
Honorato acredita que o BC poderia considerar um corte de juros nessa reunião, não fosse pelas discussões dos últimos dias.
A tensão entre governo e mercado se acentuou quando começaram a circular rumores de que o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniria com André Lara Resende, um dos “pais” do Plano Real. Posteriormente, a organização de um encontro foi negada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan.
A tese mais aceita no mercado e entre economistas ortodoxos é de que os juros vão se manter elevados à medida que a dívida pública continuar subindo. Nesse sentido, vem a cobrança dos agentes econômicos por uma política de ajuste fiscal crível por parte do governo.
Em setembro, artigo de Lara Resende discutia a redução de juros como caminho para conter o crescimento da dívida e propunha a criação de um comitê para tratar políticas fiscal e monetária concomitantemente. Além disso, Lara Resende acusava “interesses” por trás das taxas elevadas do país.
A discussão escalou nas redes sociais, envolvendo desde influenciadores de finanças e o economista norte-americano no qual Lara Resende se embasa, até quadros do Partido dos Trabalhadores.
“Um ponto importante é o fato de que, apesar de todas as pressões do PT para que o Banco Central continue reduzindo a taxa Selic, a diretoria resolveu parar de cortar a taxa de juros, o que muito provavelmente vai gerar uma certa insatisfação”, escreve José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos.
“Mas é um sinal de que o Copom continua independente e continua tentando tomar suas decisões sem interferência política. Esse é um bom sinal para os próximos meses, se por acaso os dados persistirem nessa trajetória de pressionar a taxa de inflação no futuro”, conclui.
Com esse cenário e as expectativas de inflação desancorando, Fabio Kanczuk, ex-diretor do Banco Central e fundador da consultoria FKX.Macro, define que seria “gravoso” o BC cortar a Selic.
Kanczuk ressalta que a comunicação do BC “chega no meio do caminho”, que seria a intenção do colegiado: “não brigo com ninguém”.
Após as discussões em torno das propostas de André Lara Resende, Honorato reafirma que o BC busca “colocar a bola no chão” ao apelar que o debate “saia do mundo da teoria e venha para a observação”.
Ainda nessa linha, o economista-chefe do Bradesco aponta que o caminho escolhido tenta “achar um meio termo para dizer que ainda tem racionalidade na política monetária”.