Bloqueios em colégios viram onda de protestos nacionais na França

Manifestação desta terça (6) reuniu milhares de pessoas pelas ruas de diversas cidades francesas, reunindo alunos, pais, professores e representantes sindicais

Danilo Cruz, *, em São Paulo

Mais de 260 mil pessoas participaram de manifestações espalhadas por toda a França ao longo desta terça (6), segundo o governo francês. Essa é uma das maiores mobilizações recentes do país desde os "coletes amarelos" (gilet jaunes), que protestaram em 2018 contra o governo de Emmanuel Macron.

Somente em Paris, 56 mil manifestantes foram às ruas próximas à Place de la Nation, ponto histórico parisiense. Em outras partes da capital, estudantes voltaram a bloquear o acesso a colégios. Estrasburgo, na fronteira com a Alemanha, Marselha, no sul, Lyon, na região central, Nantes, no oeste, e Caen, no norte, também tiveram grandes aglomerações.

A crise de proporções nacionais começou no Colégio Saint-Exupéry na periferia de Paris. Os alunos obstruíram o acesso à escola em protesto, cobrando por melhorias. A partir daí, a situação rapidamente escalou.

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Por meio das redes sociais e com a legenda "P.O.V: o bloqueio no seu colégio não foi um fracasso" (P.O.V: ton lycée a pas flop le blocus), estudantes compartilhavam vídeos sobre os bloqueios em suas regiões. O governo francês afirma que um número sem precedentes de instituições de ensino sofre com os atos.

Nesta terça, o protesto se expandiu e contou com a presença de membros do sindicato, professores, pais e os alunos - que puxam o movimento. O grupo cobra por melhores condições de estudo, incluindo melhorias nas salas de aulas e o aumento do corpo docente. Além disso, também pesa o aumento do custo de vida e da inflação.

"Há uma falta evidente de recursos, tanto nos prédios mal reformados quanto nos que não existem. Temos superlotação de alunos em cada escola e, então, em cada sala de aula, o que torna as condições mais difíceis", disse Erwan le Clech, professor e representante sindical durante uma passeata.

As manifestações começaram pacíficas, mas logo tiveram confrontos fortes com a polícia. Os agentes reprimiram os protestos com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Em alguns pontos, os manifestantes atearam fogo em latas de lixo e arremessaram objetos contra os policiais. O resultado dos confrontos foi de 488 pessoas detidas. Desde o dia 28 de setembro, 6.059 pessoas foram presas.

Denúncias sobre o uso excessivo de força começaram a inundar as redes sociais francesas. Segundo a afiliada da CNN na França, BFMTV, um estudante do ensino médio teve a mão gravemente queimada por uma granada de gás lacrimogêneo durante uma manifestação.

Em outro caso, um adolescente de 14 anos ficou seriamente ferido após um policial ter, supostamente, atirado contra ele com um lançador de gás lacrimogêneo a queima-roupa. A família diz que o jovem fraturou os dentes e teve a mandíbula quebrada, como consequência, está sem conseguir falar e se alimentando por líquidos.

As respostas do governo

O primeiro-ministro do país, Sébastien Lecornu, condenou a violência nos movimentos.

"A ultraviolência bateu à porta desses colégios, vocês mesmo disseram. Ela deve ser condenada sem condições. Em uma democracia que funciona, não se pode deixar nenhum espaço de tolerância à violência", afirmou durante sessão na Assembleia Nacional, sob gritos de "vergonha" vindos da oposição.

Em participação no WW, o professor de Relações Internacionais da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado) e da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Vinícius Rodrigues Vieira, diz que o cenário é desfavorável para os atuais governantes.

Segundo Rodrigues Vieira, existe um "descontentamento, uma malaise para usar uma expressão em francês, dos franceses sobre o fato que a atual conjuntura não lhes permite manter um estado de bem-estar robusto. Temos esse caldeirão que pode até mesmo impactar o que resta do governo Macron."

O presidente convocou ministros para discutir uma resposta às demandas. Até o momento, o Executivo se comprometeu com a melhora da infraestrutura, do acompanhamento dos alunos e da organização da jornada escolar.

Mas o cenário para realizar essas ações não é simples. O orçamento da França está fortemente comprometido, com o déficit ultrapassando os 5% do PIB. A dívida do país chega a 3,6 trilhões de euros - reduzindo drasticamente a margem para qualquer mudança orçamentária.

Para o professor da FAAP e da FGV, o cenário fiscal francês é insustentável.

"A conta finalmente chegou. Macron, do ponto de vista centrista, não conseguiu endereçar toda essa série de problemas que afeta a economia e o estado há tempos", explicou.

Lecornu enviou um projeto de orçamento à Assembleia Nacional na última semana sugerindo cortes de gastos, congelamento de salários e aumento de impostos. As propostas, impopulares, logo incentivaram ainda mais a onda de manifestações pelo país.

As presidenciais no caminho

Os estudantes veem os protestos como uma forma de demonstrar força política.

"Nós temos condições que são absolutamente execráveis, uma falta de professores... Nós mostramos também a nossa solidariedade inclusive pelos professores. E nós lutamos, sobretudo, contra a ascensão da extrema direita nas eleições presidenciais que chegam em 2027", disse a estudante Jana.

Além de professores, estudantes e famílias, alguns membros do partido de extrema esquerda França Insubmissa fazem parte dos atos. A sigla tem bons números entre os jovens - e seu líder, Jean-Luc Mélenchon, busca melhorar ainda mais o desempenho.

Mélenchon concorre ao Palácio do Eliseu, numa eleição que ocorre em abril do ano que vem. Em levantamento IFOP/LCI, ele aparece na terceira posição, ficando atrás somente de Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Macron, e Marine Le Pen - do partido de extrema direita, Reunião Nacional.

* com informações da Reuters



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/bloqueios-em-colegios-viram-onda-de-protestos-nacionais-na-franca/