Assassinatos de deputados britânicos expõem tensão política no Reino Unido
Mortes de Ann Widdecombe, Jo Cox e David Amess reforçam a percepção que a última década foi uma das mais perigosas na história para políticos britânicos
Pela terceira vez em pouco mais de uma década, parlamentares britânicos se levantaram um a um no Parlamento, na segunda-feira (16), para homenagear uma política assassinada e compartilhar preocupações sobre o aumento da violência na política.
"A política é uma vocação para todos nós que estamos aqui, mas não deve ser uma atividade perigosa", afirmou a ministra do Interior do Reino Unido, Shabana Mahmood, ao tentar tranquilizar os membros do Parlamento sobre sua segurança. "Devemos permanecer sempre vigilantes e responder às mudanças nas ameaças."
O assassinato da ex-deputada Ann Widdecombe na semana passada, após as mortes das deputadas Jo Cox e David Amess, em 2016 e 2021, respectivamente, reforçou a percepção de que a última década foi uma das mais perigosas da história para os políticos do Reino Unido.
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Publicado em 2026-07-17 20:35:21Desde o período conhecido como "The Troubles", nome dado ao conflito sectário na Irlanda do Norte entre o fim da década de 1960 e o Acordo de Belfast, em 1998, tantos políticos não eram mortos em um intervalo tão curto.
Naquele período, quatro parlamentares foram assassinados por militantes republicanos irlandeses entre 1979 e 1990.
Diferentemente daquela época, porém, o Reino Unido não vive atualmente um conflito interno.
A polícia abriu uma investigação após Ann Widdecombe, ex-deputada do Partido Conservador e, posteriormente, porta-voz para imigração do partido populista de direita Reform UK, ser encontrada morta em sua casa na semana passada, com "ferimentos graves".
Inicialmente, a polícia informou que não havia indícios de motivação política para o crime. Posteriormente, anunciou que a investigação passou a ser conduzida pela unidade antiterrorismo.
Um britânico branco de 28 anos, cuja identidade não foi divulgada, foi preso primeiro por suspeita de homicídio e, depois, por suspeita de "comissão, preparação ou instigação de atos de terrorismo".
Na terça-feira (14), a polícia informou que Widdecombe foi morta em um "ataque direcionado". As autoridades ainda não indicaram qual teria sido a motivação do crime, mas afirmaram que uma das linhas de investigação apura se o suspeito tinha como alvo integrantes do partido Reform UK.
Os assassinatos de Jo Cox e David Amess foram motivados por razões muito diferentes. Cox, deputada do Partido Trabalhista (centro-esquerda), foi morta por um homem com posições de direita e uma extensa coleção de objetos ligados ao nazismo. Já Amess, parlamentar do Partido Conservador (centro-direita), foi assassinado por um "islamista fanático" inspirado pelo grupo Estado Islâmico.
Assim, ao contrário da violência política dos anos 1980, impulsionada por uma ideologia mais unificada, os casos recentes parecem ter motivações distintas.
Alan Renwick, professor de política da UCL (University College London) e diretor da Unidade de Constituição da instituição, alerta para o risco de "estabelecer ligações entre as ações extremamente violentas de um pequeno número de indivíduos e tendências mais amplas da sociedade".
Ainda assim, ele reconhece que o nível de ameaça enfrentado por políticos aumentou nos últimos anos, levantando preocupações sobre os impactos para a democracia britânica.
"Ao mesmo tempo, está claro que deputados e outras figuras da vida pública agora enfrentam inúmeras ameaças quase rotineiramente", disse Renwick à CNN. "Isso representa uma mudança em relação ao passado e prejudica seriamente a democracia."
O número anual de crimes contra parlamentares britânicos registrados pela polícia chegou a quase mil em 2025, praticamente o dobro do registrado em 2022, revelou o jornal The Times em março. Esse total também representa um aumento de mais de seis vezes em relação aos 151 crimes denunciados por parlamentares em 2017, segundo um relatório do Parlamento.
Esse crescimento expressivo ocorreu após o assassinato de Jo Cox, poucos dias antes da votação que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia.
O referendo foi precedido por uma campanha marcada por forte polarização, que transformou a política britânica, deu início a um período de instabilidade e cujos efeitos ainda são sentidos hoje.
Na terça-feira, o viúvo de Jo Cox, Brendan Cox, afirmou estar "muito menos otimista" em relação ao estado do debate político do que estava na época do assassinato da esposa.
"Após o assassinato de Jo, houve um verdadeiro sentimento de choque e horror em todo o espectro político. O país inteiro se uniu por um momento para dizer que não era assim que queríamos conduzir nossa política", disse à Sky News. "Mas acho que, nos anos seguintes, nos fechamos ainda mais em nossos próprios grupos."
Para ele, a "cultura de Velho Oeste que existe na internet" é um dos principais fatores por trás dessa violência, ao amplificá-la e legitimá-la.
"Enquanto não fizermos algo em relação a esse ambiente de informação que legitima a violência como ferramenta política, continuaremos voltando a essa situação", afirmou. "Minha frustração não é com a população, mas com um ecossistema em que reguladores e políticos permitem que as redes sociais promovam constantemente os conteúdos mais extremos, muitas vezes conteúdos violentos."
O papel das redes sociais no agravamento do discurso político violento é citado repetidamente, tanto em relatórios parlamentares quanto por diversos deputados.
"Devemos reconhecer que a situação piorou muito, muito com o crescimento da atividade online", afirmou Diane Abbott, que, como a primeira mulher negra eleita para o Parlamento britânico, foi alvo de muito mais abusos do que muitos de seus colegas.
Ao mesmo tempo, as taxas gerais de criminalidade contra pessoas e residências no Reino Unido vêm caindo ao longo da última década.
O aumento da violência política não é um fenômeno exclusivo do Reino Unido, embora o número de parlamentares assassinados seja incomum em comparação com outros países europeus, onde ataques contra políticos são raros.
Em outras partes da Europa, também houve um crescimento expressivo de ataques verbais, assédio, ameaças e intimidação contra representantes eleitos — uma tendência que o Parlamento Europeu atribui ao "aumento da polarização política".
No Reino Unido, esse cenário levou um em cada três deputados que participaram de uma pesquisa parlamentar a considerar não disputar a reeleição. As ameaças também afetaram a forma como esses políticos se relacionam com seus eleitores.
Quando Shabana Mahmood, a primeira mulher muçulmana a ocupar o cargo de ministra do Interior do Reino Unido, foi eleita para o Parlamento pela primeira vez, em 2010, costumava realizar encontros abertos nos quais moradores de sua região eleitoral podiam comparecer sem agendamento para apresentar suas demandas.
Esses encontros, conhecidos como constituency surgeries, são uma tradição da política britânica e representam um importante canal de contato entre a população e seus representantes. No entanto, foi justamente durante eventos desse tipo que Jo Cox e David Amess foram assassinados. Desde então, a natureza desses encontros mudou profundamente, especialmente para os políticos mais conhecidos.
"Essas sessões informais e abertas já não são mais possíveis para mim, e precisei mudar essa forma de atendimento nos últimos anos", afirmou Mahmood no Parlamento, na segunda-feira.
"Continuo realizando atendimentos aos eleitores, mas em condições muito diferentes das que existiam quando me tornei deputada. Essa é uma mudança enorme e ocorre inteiramente por causa do que aconteceu com Jo Cox e Sir David Amess. É uma tragédia, porque muda a maneira como nos relacionamos com nossos eleitores."