As lições de sistemas elétricos deveriam nos fazer pensar

Xisto Vieira Filho, presidente da Abraget, argumenta que a expansão das fontes renováveis deve considerar os custos sistêmicos e os requisitos de confiabilidade do setor elétrico.

Temos enfatizado bastante, em vários artigos anteriores, que os exemplos referentes aos setores elétricos de outros países devem ser comparados ao brasileiro com as devidas ressalvas e cuidados. Isto porque soluções técnicas aplicadas a sistemas elétricos de configurações, requisitos e critérios de planejamento e operação diversos dificilmente podem ser comparados nas mesmas bases.

Entretanto, existem parâmetros e fatos de caráter geral que podem perfeitamente não só ser comparados, como até utilizados como lições a serem aprendidas.

Um caso desses é, indubitavelmente, o caso de resultados da chamada “transição energética” que vem ocorrendo no Reino Unido (UK), tomando-se como como base o artigo colocado como referência, escrito pelo Professor Dieter Helm, da Universidade de Oxford, reconhecido especialista internacional em Política Econômica e Climática.

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Todas as teses e pensamentos do mencionado especialista britânico se baseiam no fato de que, atualmente, o preço da energia elétrica no citado País, é um dos maiores do mundo. Segundo seu trabalho, as dívidas de consumidores do UK com as coutas de energia chegam a £ 4 Bilhões; os preços de energia pagos pela indústria britânica atingiram patamares tão elevados que tornaram as mesmas menos competitivas, como atestam os fechamentos das fábricas de automóveis. Seria muito interessante a nossa indústria analisar melhor o que vem ocorrendo no UK, para dimensionar um pouco melhor suas concepções a respeito de preços de energia elétrica.

Mas vamos ao mais importante: como pode isto estar acontecendo em um sistema elétrico que se atirou de "corpo e alma" na transição energética, colocou um montante extremamente elevado de fontes renováveis, consideradas mundo afora como "baratinhas"? E é exatamente este ponto que o professor Helm explica com maestria, em seu artigo de Junho/2026.

As fontes renováveis estão longe de ser “nove vezes mais baratas", quando se considera os custos do sistema que as mesmas causam, seja pela intermitência, seja pela falta de atributos de confiabilidade, seja pela imprevisibilidade de seu despacho pelos operadores. E estes custos adicionais, "como que por encanto", são esquecidos por planejadores e reguladores, na ânsia de se alinharem ao discurso verde moderno, mas impreciso.

Em outras palavras, o sistema elétrico precisa prever, para fazer face à expansão, dita renovável, por capacidade de transmissão não otimizada (transmissão intermitente), reserva de potência, capacidade de potência para confiabilidade, armazenamento, flexibilidade, serviços ancilares diversos.

E quem paga essa conta toda? claro que são os consumidores, de una forma ou de outra.

O mais incrível é o paradigma que se cria: quanto mais fontes intermitentes, maiores os requisitos de potência firme e flexibilidade e maior o número de períodos com excesso de energia, exigindo "curtailment”. Lógica econômica de total imperfeição.

Outro ponto fundamental que o Professor Helm defende é a "Potência Firme Equivalente" por tipo de fonte. Isto, inclusive, já vem sendo utilizado na PJM (Pennsylvania-Jersey-Maryland interconection) há alguns anos, em seus leilões de potência.

Neste desenho, cada tipo de fonte teria a sua potência firme em montantes adjudicados pelos órgãos reguladores, como já fazemos, inclusive, no sistema brasileiro, mas com algumas imperfeições.

O professor Helm também destaca que, por muito tempo ainda, o gás natural será de extrema relevância no sistema inglês, e vemos, neste ponto, uma grande convergência com o nosso sistema, onde teríamos que adicionar as nucleares, e até as usinas a carvão com novos tratamentos climáticos, tipo CCUS (Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono).

Concluindo, vamos ter um pouco de calma e parcimônia na nossa dita "transição energética" e não vamos nos encantar facilmente com discursos pré-fabricados do tipo que afastem o consumidor brasileiro da confiabilidade e da razoabilidade do preço da energia.

* Xisto Vieira Filho é Abraget presidente da Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas

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Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/as-licoes-de-sistemas-eletricos-deveriam-nos-fazer-pensar/