Análise: Trump tomou decisão sobre IA; humanidade pode depender disso

Presidente americano se reuniu com líderes do setor da tecnologia na terça-feira (29) e declarou ter assinado um compromisso de "autorregulação" "moralmente vinculativo"

Stephen Collinson, da CNN

O presidente dos EUA, Donald Trump, reuniu-se com líderes do setor de tecnologia na entrada da Casa Branca na terça-feira (29); figuras que, na visão delas próprias, detêm o destino do planeta em suas mãos.

Horas antes, a crescente onda de alertas de empresas de IA havia tomado um rumo sombrio com a revelação de que a Anthropic teme que seus modelos representem um "risco catastrófico ou existencial para a humanidade".

A notícia surgiu, de forma inusitada, no prospecto — obtido pela Reuters — de uma futura oferta pública inicial (IPO) que poderia arrecadar dezenas de bilhões de dólares para a empresa, que busca capital.

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O encontro ofereceu uma oportunidade ideal para a liderança presidencial diante de uma nação preocupada com os riscos da nova tecnologia, especialmente porque muitos dos convidados de Trump vinham clamando por regulamentação governamental.

A resposta de Trump — descrito corretamente pelo presidente da Câmara, Mike Johnson, como a única pessoa com influência suficiente para reunir tal grupo — foi algo já conhecido: uma mudança de marca.

"Mudamos o nome, oficialmente, hoje. Mudamos o nome oficialmente para SI", disse Trump.

"SI em vez de IA... Sabe o que isso significa? 'Super'... É um grande anúncio", acrescentou.

Trump havia prometido anteriormente que não haveria desaceleração na pesquisa de IA, apesar dos temores alarmantes de seus criadores. Ele declarou que eles haviam assinado um compromisso de "autorregulação" que era "moralmente vinculativo".

O presidente americano não conseguia parar de exaltar a IA. Ou a SI.

"É a maior coisa que existe, talvez a maior coisa que já existiu", disse ele, celebrando sua mais recente tentativa de remodelar uma realidade política por meio de uma mudança de nome.

Se, nos próximos anos, Trump se mostrar correto ao afirmar que os receios sobre as possibilidades perniciosas da IA ??são exagerados, ele poderá ser visto como um visionário.

Sua convicção de que a IA representa uma corrida pela supremacia sobre a China — uma potência rival — poderia proporcionar uma vitória geopolítica aos Estados Unidos.

E seu argumento de que o excesso de regulamentação poderia sufocar um setor crucial para a estabilidade econômica dos EUA não deve ser descartado, dada a importância da indústria para o crescimento econômico futuro e para uma prosperidade mais ampla.

A grande aposta de Trump

No entanto, a postura de Trump também levantou questões preocupantes.

Não parece que ele esteja emergindo de um período de reflexão profunda, algo que uma tecnologia tão disruptiva poderia exigir.

Em contrapartida, o presidente George W. Bush passou um verão, em 2001, refletindo sobre a moralidade e a utilidade da pesquisa com células-tronco em seu rancho no Texas.

Trump ignora quem fala sobre os riscos da IA ??ou a ameaça representada por agentes mal-intencionados, classificando tais preocupações como uma "farsa" do Partido Democrata destinada a prejudicar os republicanos.

A resposta de Trump aos eleitores que temem perder seus empregos para a IA, ou que veem com desconfiança a enorme pressão que os data centers exercem sobre as redes elétricas e o abastecimento de água, é uma promessa otimista de que tais instalações "serão muito populares" e tornarão todos ricos.

Ele está criando para si mesmo um problema político imediato. Cerca de 75% dos americanos veem o avanço da IA ??com medo e preocupação, segundo uma pesquisa da CNN/SSRS realizada na semana passada, e 71% querem que o governo federal faça mais para regulamentá-la.

Contas de luz mais altas, atribuídas à imensa proliferação de data centers, estão agravando a frustração dos eleitores com os custos — uma questão central nas eleições de meio de mandato.

A longo prazo, Trump se deixa extraordinariamente vulnerável a uma possível reação política negativa caso as revelações — agora frequentes — sobre ataques de IA a sites corporativos ou governamentais anunciem uma verdadeira crise nacional ou global. Se ficar comprovado que as empresas de IA, como ele insiste, não conseguem se autorregular, a responsabilidade recairá sobre ele.

A atitude de indiferença de Trump reflete a abordagem que ele adotou no início da pandemia de Covid-19, durante seu primeiro mandato, quando parecia acreditar que bastava desejar o fim da ameaça para eliminá-la.

O exemplo mais notório foi quando ele argumentou que, se o país parasse de testar para o vírus, não haveria mais casos.

Num nível mais fundamental, as garantias de Trump de que a indústria de IA pode se autorregular são questionáveis.

Há poucas evidências de que os gigantes da indústria de tecnologia — especialmente aqueles cujas marcas de redes sociais transformaram a sociedade moderna e a natureza da infância — reflitam profundamente sobre o impacto social de suas criações.

Trata-se de uma indústria que raramente parece acreditar que deve prestar contas aos cidadãos e aos seus líderes democráticos, ou que deseja uma supervisão significativa e mecanismos de controle.

Os inventores de novas tecnologias rapidamente se tornaram oligarcas com poder extraordinário, incluindo a capacidade de influenciar eleições — como Elon Musk, com o financiamento massivo de campanhas para Trump e outros candidatos do Partido Republicano.

Portanto, acreditar que esses gigantes rivais — cujas empresas nem todas podem sobreviver à concorrência — cooperarão em prol do bem comum ou, como disse Trump, por "amor ao nosso país", exige um enorme ato de fé.

Por que Trump é tão contrário à regulamentação?

Ideologicamente, o segundo mandato de Trump tem sido um exercício de remoção de restrições que limitam a indústria, as empresas e os interesses de grandes grupos econômicos em todos os setores. Pessoalmente, Trump aceita poucas limitações ao seu próprio comportamento.

Ele detesta mecanismos de controle que cercam a presidência; portanto, não surpreende que ele também os rejeite quando se trata da indústria de tecnologia.

No entanto, a recusa absoluta em impor qualquer medida de segurança à indústria de IA levanta a questão: por que esse setor deveria ser tratado de forma diferente de outras áreas da vida americana?

A aviação civil, por exemplo, é extremamente segura porque, há gerações, cada acidente ou incidente é investigado e as lições aprendidas são incorporadas às normas de segurança. Os governos concluíram há muito tempo que, quando se trata da segurança e do bem-estar da população, não se pode confiar que setores como a indústria alimentícia, a área médica e a indústria automobilística priorizarão o interesse público em detrimento de seus próprios interesses particulares. Essas normas são garantidas por leis, regulamentos e penalidades, como multas.

Então, por que a indústria de IA deveria ser diferente?

Kristian Hammond, professor de ciência da computação na Universidade Northwestern, explicou a lógica por trás da regulamentação.

"Você só instala barreiras de proteção em coisas que estão com defeito e fora do seu controle", disse Hammond a Kasie Hunt, da CNN.

"Se você tivesse um carro que fosse muito rápido e fácil de dirigir, mas que, de vez em quando, jogasse você contra uma parede, você não diria: 'Ah, precisamos de barreiras de proteção'. Você diria: 'Precisamos consertar a direção'", afirmou.

Hammond continuou: "A situação atual da IA ??é que não dispomos dos controles explícitos necessários para tornar esses sistemas eficazes".

Um aspecto implícito da presidência de Trump é a demonstração direta e contundente de poder. Na terça-feira, a indústria de IA tornou-se o exemplo mais recente de sua convicção — aparente — de que quase tudo na vida americana está sob seu controle.

Durante um almoço com líderes do setor de IA, o presidente divulgou um mapa da disposição dos assentos que o mostrava ladeado por Musk — a pessoa mais rica do mundo — e Jensen Huang, CEO da Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo. Mais tarde, a sessão de fotos na entrada da Casa Branca colocou Trump na posição de figura dominante, impondo-se sobre alguns dos pioneiros da tecnologia mais ricos e brilhantes da história da humanidade.

Em certo momento, um repórter perguntou aos líderes do setor de tecnologia — alguns dos quais haviam provocado quase uma histeria ao alertar para o impacto nefasto da IA ??— se eles concordavam com Trump de que não era necessária nenhuma regulamentação e que a autorregulação neutralizaria qualquer potencial destrutivo de seus modelos.

Eles não tiveram a chance de responder.

"Quer dizer, posso lhes garantir que a resposta é sim", disse Trump, intervindo.

"Discutimos isso com cerca de 40 das principais lideranças", acrescentou ele, antes de se voltar para Huang, que já havia descartado os temores em relação à IA como "narrativas apocalípticas" e que declarara aos repórteres, na terça-feira, que "não há conflito entre inovação, tecnologia e segurança".

A postura de Trump em relação à IA é emblemática de uma presidência que se desenrola por meio de decisões baseadas na intuição, grandes apostas e uma relutância em explicar publicamente seu raciocínio — ou em debater possíveis cursos de ação compartilhando suas intenções com a nação.

Há muito em jogo para ele no que diz respeito à IA. O setor está sustentando a economia, e sua fortuna pessoal está fortemente exposta à indústria de tecnologia.

Para a nação — e para o mundo —, o que está em jogo é ainda maior. Muito mais do que o destino de Trump nas eleições de meio de mandato ou o seu legado depende de ele acertar nessa questão.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-trump-tomou-decisao-sobre-ia-humanidade-pode-depender-disso/