Análise: Trump impõe política externa da força nas Américas
Escudo das Américas sanciona 24 facções, incluindo PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho); analistas debatem credibilidade das ameaças de Trump
Os países integrantes do chamado Escudo das Américas assinaram na terça-feira (22) um acordo para designar formalmente 24 facções acusadas de narcotráfico como "ameaças compartilhadas", entre elas o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).
As medidas preveem sanções como congelamento de bens, restrições de imigração a integrantes e apoiadores dos grupos, além da responsabilização criminal de quem forneça apoio material às organizações.
O acordo foi assinado pelo grupo formado por 14 países no mesmo dia em que, na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Donald Trump anunciou uma série de ações contra cartéis, com ameaças militares explícitas. O Brasil não faz parte do Escudo das Américas e é contrário à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.
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Publicado em 2026-09-23 09:05:21Os pilares do Escudo das Américas
O professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin analisou o conteúdo da declaração assinada pelo grupo.
Segundo ele, o documento está estruturado em três pilares: a defesa das economias mediante cooperação econômica, a governança democrática contra redes armadas de narcoterrorismo e o respeito mútuo à soberania nacional dos países signatários.
"A declaração joga tudo para uma reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos), para usar o estatuto da organização", explicou Brustolin, acrescentando que o Brasil é membro da OEA, embora não integre o Escudo das Américas.
Brustolin destacou ainda que a declaração prevê compartilhamento de inteligência e de tecnologia de vigilância e repressão, o que poderia viabilizar o uso da força. "Pela declaração, isso deve ser feito em cooperação com os países signatários", pontuou.
Ele observou que o Brasil e o México não foram convidados a integrar o grupo, apesar de Trump ter afirmado em entrevista que acreditava que ambos tinham recebido convite. Para o professor, o Escudo das Américas reúne governos ideologicamente alinhados aos Estados Unidos.
Ameaças ao Irã e limites do uso da força
No discurso na Assembleia Geral da ONU, Trump também fez ameaças militares ao Irã, afirmando que tomaria uma "decisão muito importante" entre negociar ou "aniquilar" o país. O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna avaliou que a retórica é parte de um jogo político.
"Ele já tentou usar esse estratagema diversas vezes ao longo dessa crise, que já dura seis meses", afirmou Sant'Anna. Segundo ele, Trump não dispõe de novas ferramentas: "Tudo que ele está fazendo é apenas mais do mesmo, que é coerção econômica, bloqueio naval, alguns ataques pontuais e a retórica".
Lourival argumentou que, mesmo após as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump não teria a opção política de desembarcar tropas no Irã.
"Os republicanos não aceitam, o país não aceita, já é uma guerra impopular mesmo sem desembarque de tropas", disse. Sem essa medida, segundo o analista, não seria possível dobrar o Irã ou desbloquear de forma sustentável o Estreito de Ormuz.
Reordenamento global e a visita de Xi Jinping
No cenário mais amplo da Assembleia Geral, Vitelio Brustolin comentou os discursos de líderes como os do Canadá, da França, do Reino Unido e do Japão, que, em conjunto, sugerem uma busca por coordenação contrária às propostas de Trump.
Ele destacou o caso do Canadá, cujo representante Mark Carney tem defendido que potências médias formem alianças, inclusive com a União Europeia. "A Austrália está nessa fila", acrescentou Brustolin, que também comentou que essa movimentação reforça críticas ao Brexit.
Sobre a visita de Xi Jinping aos Estados Unidos — a primeira em 11 anos —, Lourival avaliou que a China chega à mesa de negociações em posição de força. "Xi tem as cartas: minerais críticos, um mercado gigantesco, reservas de trilhões de dólares e capacidade de produção de manufaturados tecnológicos", enumerou. "A tendência é bastante favorável à China", concluiu o analista.