Análise: Terrorismo e crime organizado não têm mesmo objetivo político
A analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta comenta a classificação dos EUA e alerta para danos colaterais ao setor financeiro e à soberania brasileira
A classificação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano é um tema controverso que traz tanto potenciais benefícios quanto riscos significativos para o Brasil. A avaliação é da analista de Internacional da CNN Fernanda Magnotta ao CNN 360°.
Para Magnotta, a decisão era esperada.
"Era uma questão de tempo, a gente já sabia que isso viria muito provavelmente", afirmou a analista, acrescentando que o Brasil não é o primeiro país a enfrentar esse tipo de designação, mas que o caso brasileiro é "bastante emblemático".
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Publicado em 2026-05-30 15:03:11Possíveis benefícios da designação
Entre os aspectos positivos, Magnotta apontou que a medida aumenta o custo internacional para as organizações criminosas.
A partir da nova classificação, os Estados Unidos passam a poder aplicar uma série de instrumentos jurídicos previstos pela legislação americana, como congelamento de ativos, imposição de sanções secundárias, perseguição a operadores financeiros e ampliação da cooperação internacional.
Magnotta também destacou que a medida deve ampliar o compartilhamento de informações de inteligência, com foco em aumentar a rastreabilidade de operadores do segmento financeiro mais sofisticado e na identificação de agentes internacionais.
"Essa pressão que se cria no campo político e econômico talvez beneficie o processo de tratar um fenômeno dessa natureza como um fenômeno transnacional", avaliou.
Riscos e controvérsias
Por outro lado, a analista ressaltou que a medida suscita um debate com potenciais danos colaterais.
O primeiro ponto levantado por Magnotta é conceitual: "Terrorismo e crime organizado não são a mesma coisa. Eles não têm a mesma natureza, eles não têm os mesmos objetivos nem fins políticos e ideológicos."
Segundo ela, essa generalização abre margem para a construção de narrativas e, em um contexto de polarização política crescente, "a instrumentalização disso pode se tornar um desafio no futuro".
Do ponto de vista prático, a analista alertou para a criação de grande insegurança para os agentes econômicos brasileiros.
A designação permite que os Estados Unidos implementem sanções e mecanismos econômicos por meio do poder do dólar e do controle do sistema financeiro internacional, o que pode aumentar de forma significativa o peso das medidas de compliance em bancos, fintechs e empresas de pagamentos e investimentos.
Impacto na cooperação bilateral
Outro ponto de preocupação levantado por Magnotta diz respeito à arquitetura de cooperação já existente entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado.
Com a nova designação, o tema deixa de estar no escopo policial e passa a envolver o Departamento de Defesa e a CIA.
Ela alertou ainda que informações classificadas como secretas podem não ser compartilhadas com a contraparte brasileira, o que representa um risco adicional.
"No final das contas, todo mundo, em tese, quer combater o crime organizado, mas não se tem clareza quais são os danos colaterais e se esse tiro vai sair ou não pela culatra", afirmou.
"Pode ser que fique mais difícil combater o crime, pode ser que fique mais caro, inclusive para quem não tem nada a ver com isso."