Análise: Rússia tenta desestabilizar Europa com ataques em "zona cinzenta"
Investidas em regiões fronteiriças entre Ucrânia e países da Otan é uma tentativa de mostrar o custo de apoiar Kiev; passo em falso pode gerar consequências catastróficas
Os ataques da Rússia à Europa visam fazer com que a guerra pareça mais próxima, sem realmente iniciá-la. Provocar, sem forçar uma resposta. Alarmar, sem causar uma mudança real de comportamento. É uma estratégia construída em torno de uma contradição.
Moscou intensificou visivelmente seu conflito de "zona cinzenta" com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Europa nesta última semana.
Desde o final do domingo passado (13), uma ferrovia pela qual viajavam ex-autoridades ocidentais de alto escalão foi atacada por um drone russo; outro drone, provavelmente de origem russa, foi abatido na Lituânia; um terceiro também apareceu na costa polonesa; já um helicóptero dinamarquês escapou por pouco de ser atingido por um sinalizador russo; além de trens holandeses que foram paralisados ??por um ato de sabotagem cuja autoria ainda não foi reivindicada.
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Publicado em 2026-09-20 11:46:12Nada disso é por acaso. E tudo isso ocorre após semanas de alertas de que Moscou buscaria uma escalada com a Otan — embora talvez não porque deseje ou tenha condições de sustentar um conflito aberto com a maior aliança militar da história.
Em vez disso, o presidente russo, Vladimir Putin, tem dois objetivos, facilitados por uma administração Trump relutante em contrariá-lo devido às eleições de meio de mandato no país e pelo estado de escassez crítica das defesas aéreas da Ucrânia.
O primeiro objetivo do líder é fazer com que o custo de apoiar a Ucrânia pareça real e crescente, pesando na mente dos eleitores europeus num momento em que partidos de direita pró-Rússia disputam o poder em vários países da região. O segundo é testar uma obsessão negativa de longa data de Putin, o Artigo 5 — a pedra angular da aliança da Otan, segundo a qual um ataque a um membro é um ataque a todos.
Não resta dúvida: a Rússia está conseguindo realizar atos de sabotagem, violações de fronteira e planos de assassinato que, na Guerra Fria, teriam gerado um temor existencial. Agora, tudo isso parece algo corriqueiro.
Como me disse um diplomata europeu: "O que está acontecendo agora teria acionado o Artigo 4 da Otan há apenas alguns meses" — referindo-se à cláusula do tratado da aliança que convoca uma reunião de emergência em caso de crise.
"Agora, está se tornando algo quase diário." Falando sob condição de anonimato por tratar de um assunto sensível, o diplomata acrescentou que o objetivo da Rússia era "assustar a Europa para que ela deixe de apoiar a Ucrânia" e "explorar o medo de uma escalada".
O grande problema da Otan é que isso provavelmente não representa o auge da hostilidade russa, mas sim suas investidas iniciais.
Um acordo de paz parece algo muito distante, com os Estados Unidos demonstrando ineficácia em suas pressões e Putin claramente determinado a conquistar a região oriental de Donbas e, talvez, outras partes da Ucrânia.
Embora o desperdício estarrecedor de capital humano por parte da Rússia freie um pouco suas ambições, o complexo industrial-militar do Kremlin está oferecendo opções novas e concretas: uma forma de poder aéreo barato e altamente eficaz, difícil de ser combatido pelos adversários e passível de produção em massa crescente.
Os drones russos Geran 4 e 5 são equipados com motores turbojato de fabricação chinesa — que custam cerca de 40 mil dólares (R$ 205 mil), segundo autoridades e a imprensa da Ucrânia —, sendo que cada unidade é comercializada por aproximadamente 70 mil dólares (R$ 360 mil). O míssil de cruzeiro Banderol, por sua vez, pode atingir velocidades de cerca de 600 km/h e, segundo relatos, custar apenas 100 mil dólares (R$ 513 mil).
Qualquer deficiência dessas armas em termos de refinamento ou precisão é compensada pelo volume massivo de utilização. Além disso, Moscou está apenas começando: sua fábrica de drones em Alabuga está se adaptando rapidamente para inundar as linhas de frente — e além delas — com essa nova ameaça.
A produção é um fator-chave.
A Dra. Marina Miron, do Departamento de Estudos de Defesa do King’s College London, afirmou que a "adaptação em termos de produção, cadeias de suprimentos, logística e doutrina" é parte vital de qualquer estratégia, mesmo que isso não ganhe tanto destaque na mídia quanto a integração da inteligência artificial às operações de reconhecimento e ataque no campo de batalha, tanto na Ucrânia quanto na Rússia.
"Ambos os lados tentam se adaptar e inovar para tirar proveito de uma janela de oportunidade curta... enquanto o adversário desenvolve contramedidas" para barrar esses novos avanços, disse ela.
"A Otan está muito atrás no que diz respeito à prontidão para lidar com essas mudanças", acrescentou Miron. "Não se trata apenas de criar defesas contra drones... [mas] de repensar toda a doutrina." Segundo ela, o ideal seria que a organização não copiasse a Ucrânia ou a Rússia, mas sim se adaptasse às "lições aprendidas com ambos os lados".
Miron afirmou que a probabilidade de uma guerra convencional é "baixa", mas que a Otan deverá, em vez disso, "enfrentar 'eventos' abaixo do limiar de conflito aberto, como já testemunhamos na Polônia, na Romênia, na Dinamarca, etc."
Nessa crise em gestação, parte do desafio para os membros da aliança é como transmitir às suas populações a gravidade da ameaça que enfrentam continuamente agora, sem provocar pânico nem conceder uma vitória psicológica a Moscou. É uma tarefa de equilíbrio extremamente delicada.
Um ataque com drone que por pouco não atingiu um aeroporto alemão, um míssil balístico que caiu em campo aberto na Polônia, planos de assassinato citados em denúncias apresentadas no Distrito Sul de Nova York: a lista vem crescendo desde o fim do verão, assim como o potencial de letalidade e a abrangência geográfica dessas ameaças.
Moscou talvez esteja mais bem preparada para esse tipo de dança arriscada. Um alto funcionário europeu afirmou que a mentalidade russa estava mais adaptada do que a da Otan a uma escalada errática. "Desde a era soviética, os russos teorizam sobre o ajuste flexível de poder e agressão", observou ele. "Para a Otan, gerir a escalada dessa maneira é algo relativamente novo. Portanto, há lições a serem aprendidas pela aliança."
Ele acrescentou: "Reagir de forma exagerada não é útil, mas oferecer a outra face também não."
Em algum momento, a Rússia cometerá um erro de cálculo, ultrapassará limites e forçará um membro da Otan a responder com força de alguma maneira. Isso não é inédito: na Síria, um ataque de mercenários russos do Grupo Wagner contra posições dos EUA em 2018 provocou uma resposta militar americana feroz.
Também não devemos esquecer que armamentos e inteligência da aliança estão auxiliando a Ucrânia diariamente a atacar a Rússia. Muitas vezes, trata-se de armamento comprado e fornecido pela Otan, mas com os ucranianos acionando o gatilho. Moscou — em sua perspectiva distorcida de invasora — talvez sinta que está apenas revidando.
No entanto, quando a Rússia der esse passo em falso, a escalada no confronto que isso acarretará será algo para o qual nem os militares nem o público da Otan estão preparados. E esse momento parece se aproximar a cada dia.