O mercado de mineração no Brasil abre uma nova frente de discussão, impulsionado diretamente pela corrida global por minerais críticos, como o cobre. O mineral é apontado como essencial para o avanço da inteligência artificial, da transição energética e para a modernização da infraestrutura global.
Diferente da atividade extrativa tradicional, o setor passa a reivindicar um novo status para as chamadas mineradoras júniores, defendendo que elas atuam como verdadeiras startups do setor de infraestrutura. O tema foi detalhado por Gustavo Roque, colunista da CNN Infra, em análise sobre o cenário.
Semelhanças com o modelo de startup
Gustavo Roque destacou dois pontos centrais para compreender essa aproximação.
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Publicado em 2026-05-27 17:32:55Segundo ele, a discussão já estava em curso há cerca de um ano em um laboratório de mineração na Universidade de Stanford, onde fundos de Venture Capital debatiam se as mineradoras júniores deveriam ser tratadas como startups.
“Quando a gente pensa o que é uma startup? É uma empresa de base tecnológica, que ela precisa ser escalável e ter um modelo replicável. E quando a gente olha isso para uma mineradora júnior, é um pouco similar”, afirmou Roque.
De acordo com o colunista, essas empresas utilizam intensamente tecnologia para realizar pesquisas iniciais e, uma vez comprovada a viabilidade, o modelo pode ser replicado em outras minas.
Além disso, a agregação de valor por meio do refino permitiria que diferentes minas alimentassem um mesmo processo produtivo, reforçando o paralelo com o modelo escalável das startups.
Unicórnios na mineração
Roque mencionou que uma publicação canadense apontou que, com a valorização do cobre, cerca de 20 empresas do setor poderiam atingir valor de mercado de US$ 1 bilhão — tornando-se, assim, os chamados “unicórnios”, termo amplamente utilizado na indústria de tecnologia.
“Então eles começam um movimento, uma discussão, que eu acredito que eventualmente até os próprios geólogos mais tradicionais ainda vão preferir o conceito da mineradora júnior”, ponderou.
Para Roque, a adoção da denominação “startup” não seria apenas uma estratégia de marketing, mas um posicionamento estratégico voltado ao acesso a capital de risco.
“Você busca um capital de risco que está acostumado com as incertezas, está acostumado com as imprevisibilidades e com o conceito de prova de conceitos que muitas dessas mineradoras precisam fazer no seu processo”, explicou.
Cobre como ativo estratégico do futuro
Ao ser questionado sobre se o cobre poderia se tornar o novo petróleo da economia digital, Roque foi cauteloso ao fazer comparações diretas, mas ressaltou o papel estratégico do mineral.
“Eu arrisco dizer que ele tem um valor no longo prazo e para o futuro da humanidade até mais importante do que o petróleo, porque a gente olha para o cobre como essencial para a transição energética, para a transformação digital”, afirmou.
O colunista também destacou a importância do cobre em eletrodomésticos de linha branca, como geladeiras e ar-condicionados, especialmente em países onde populações de baixa renda ascendem à classe média. “Ao mudar isso, você melhora a saúde, você diminui os riscos e outros processos inerentes a isso”, disse Roque.
Desafios para o crescimento no Brasil
Apesar do potencial, Roque apontou que o avanço das mineradoras júniores ainda é lento, principalmente pela dificuldade de acesso a capital.
Fundos mais tradicionais, com perfil de private equity, mostram resistência em assumir os riscos inerentes ao setor. “Quando nós entendemos que terá um eventual mecanismo de um fundo de Venture Capital aportando recursos, isso pode ficar mais fácil”, avaliou.
Outro obstáculo mencionado é o longo ciclo de maturação do setor. “Uma mineradora leva em média 15 anos para sair do papel até operar”, lembrou Roque, destacando que incorporar as premissas de uma startup significaria acelerar esse processo, especialmente na fase de exploração, com o uso intensivo de tecnologia.
Canadá, Austrália e os desafios regulatórios brasileiros
Roque apontou o Canadá e a Austrália como referências no setor, destacando que ambos os países possuem bolsas de valores que facilitam a abertura de capital das mineradoras júniores.
O colunista observou que empresas que, na prática, operam no Brasil acabam sendo registradas no Canadá ou na Austrália para ter acesso a esses mercados. “Empresas que na verdade são brasileiras, elas são tratadas como canadenses, australianas em função disso. Sendo que deveríamos estar tendo essas empresas baseadas aqui”, criticou.
O colunista também citou a Arábia Saudita como um país a ser observado, destacando a estratégia estruturada por meio da chamada “Visão 2030”, que inclui a criação de infraestrutura para atrair novas mineradoras e abrange uma perspectiva regional que contempla o Oriente Médio e a África.
Para Roque, o Brasil precisa acelerar seus processos enquanto ainda há espaço para avançar sem enfrentar concorrência acirrada. O colunista também mencionou o crowdfunding como uma possível alternativa de financiamento para aproximar o setor mineral da narrativa tecnológica e democratizar o acesso ao investimento em mineração.