Análise: Israel pode mudar governo, mas não estratégia contra Irã
A uma semana das eleições parlamentares, doutrina de segurança israelense agora se apoia em três pilares: enfraquecer o Irã, manter zonas de amortecimento além das fronteiras do país e usar a força para dissuadir inimigos
A eleição em Israel na próxima semana pode mudar o primeiro-ministro, mas não a estratégia do país: o Irã continuará sendo seu principal adversário, a força militar seguirá como instrumento preferencial e a criação de um Estado palestino permanecerá distante, afirmam autoridades regionais e analistas.
Isso ocorre porque as premissas estratégicas que sustentam a política israelense foram consolidadas após os ataques de 7 de outubro de 2023 contra comunidades no sul de Israel, realizados pelo grupo militante palestino Hamas, e pelas guerras em Gaza, no Líbano e no Irã.
A política de segurança de Israel pode se tornar ainda mais rígida, segundo os analistas. Uma vitória do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com o apoio de aliados de extrema direita, poderia incentivá-lo a intensificar a guerra contra o Irã, ampliar o controle israelense sobre a Cisjordânia ocupada e deixar a diplomacia ainda mais em segundo plano.
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Publicado em 2026-10-21 10:47:59A doutrina de segurança israelense agora se apoia em três pilares: enfraquecer o Irã, manter zonas de amortecimento além das fronteiras do país e usar a força para dissuadir inimigos.
A verdadeira divergência entre os candidatos está no grau, e não na direção, afirmam os analistas: quão agressivamente Israel conduzirá suas guerras, até onde ampliará os assentamentos judaicos na Cisjordânia e se algum líder optará pela diplomacia.
De Teerã a Riad, a eleição de terça-feira não é vista como um possível ponto de virada, mas como um teste para saber se o Oriente Médio está entrando em um período de confronto prolongado, no qual as guerras diminuem e se intensificam sem que os conflitos subjacentes sejam resolvidos.
“Se Netanyahu for eleito, fará o que achar que quer fazer”, afirmou Aviv Bushinsky, ex-assessor do primeiro-ministro. “A expansão dos assentamentos continuará. As guerras contra o Irã, o Hamas e o Hezbollah continuarão.”
“O que vemos agora é o que veremos depois da eleição, talvez de forma ainda mais agressiva”, disse. “Enquanto o Irã estiver nessa situação, é perda de tempo falar sobre a Palestina.”
No domingo, Netanyahu afirmou que Israel precisa priorizar a “prevenção e a ofensiva em vez da contenção e da defesa”, incluindo ataques preventivos para impedir ameaças emergentes, além de estabelecer o país como potência regional e maximizar sua independência na produção de armamentos.
Por que a política dificilmente mudará
A eleição coloca o Likud, partido de direita de Netanyahu, e seus aliados ultranacionalistas contra uma oposição liderada pelo ex-chefe militar Gadi Eisenkot, do partido Yashar.
O analista palestino Ghassan al-Khatib não vê perspectiva de uma mudança fundamental na política em relação aos palestinos. Segundo ele, os partidos israelenses disputam espaço com posições cada vez mais rígidas, enquanto a opinião pública se desloca ainda mais para a direita.
“O conteúdo da política permanece o mesmo: não a um Estado palestino e sim à expansão dos assentamentos. Nesse ponto, todos concordam”, afirmou.
Um governo liderado pelos adversários de Netanyahu poderia tentar recuperar a posição internacional de Israel, restringindo parte da violência dos colonos ou promovendo a expansão dos assentamentos com menos alarde. Mas essas mudanças representariam uma alteração de estilo, e não de conteúdo, segundo al-Khatib.
Michael Young, do Carnegie Middle East Center, afirmou que o aparato de segurança israelense e boa parte da classe política compartilham uma visão estratégica centrada no enfrentamento ao Irã, na manutenção de uma “defesa avançada” e na preservação da dissuasão militar, o que reduz o espaço para grandes mudanças políticas.
Joost Hiltermann, do International Crisis Group, que realizou pesquisas na Cisjordânia, afirmou que o aumento da violência dos colonos, a crescente frustração palestina e a ausência de uma “perspectiva política” criaram condições explosivas, nas quais até mesmo um pequeno incidente poderia desencadear uma revolta mais ampla.
“Polvo venenoso”
Algumas autoridades regionais questionam se o confronto de Israel com o Irã se tornou o princípio organizador da segurança no Oriente Médio, independentemente de quem vencer a eleição.
Os elogios do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Netanyahu, a quem chamou de “um grande primeiro-ministro guerreiro”, reforçaram a expectativa de que o líder israelense tentará concluir a campanha contra Teerã caso permaneça no poder.
Netanyahu deixou claro que suas ambições vão além de conter o Irã: ele pretende derrubar os governantes religiosos do país.
“Concluir a tarefa significa derrubar o regime terrorista no Irã, a cabeça do polvo venenoso”, afirmou em um discurso nesta semana.
Analistas militares e políticos, porém, questionam se algo menos que uma invasão terrestre conjunta dos Estados Unidos e de Israel seria capaz de levar Teerã a abandonar o que considera seus interesses fundamentais de segurança em uma luta que vê como existencial.
Após sobreviver a meses de guerra, o Irã pode apostar que conseguirá resistir por mais tempo que seus adversários, mantendo a pressão por meio de aliados regionais.
“Isso é um atoleiro”, afirmou Young. “Os iranianos conseguem resistir mais tempo que Trump.”
O Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, em Gaza, foram enfraquecidos, mas a rede mais ampla de grupos alinhados ao Irã sobreviveu. Segundo os analistas, o conflito também pode reforçar a determinação de Teerã de buscar uma capacidade de dissuasão nuclear.
Apesar da preocupação que Netanyahu provoca no mundo árabe, alguns líderes do Golfo ainda o consideram o político israelense com maior probabilidade de manter o Irã sob pressão.
Isso cria um dilema para esses países. Eles se opõem ao que consideram políticas expansionistas de Netanyahu, mas querem limitar a influência iraniana.
“As políticas de Netanyahu em Gaza, na Cisjordânia, na Síria e no Líbano são prejudiciais”, afirmou Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center. “Quanto ao Irã, é necessário um acordo antes que o conflito se intensifique ainda mais. Se o papel do Irã não for contido, a região poderá estar caminhando para 50 anos de hegemonia iraniana.”