A Colômbia realiza neste domingo (31) o primeiro turno de suas eleições presidenciais. Caso nenhum candidato alcance 50% mais um dos votos — cenário altamente provável —, a definição se transfere para 21 de junho, quando vence a chapa com mais votos, independentemente do percentual obtido.
O que está em jogo não é apenas quem governará a Colômbia entre 2026 e 2030. É se os governos de esquerda continuarão controlando duas das três maiores economias da América do Sul, ou se Lula (PT) ficará como o último representante relevante desse projeto na região.
O contexto de violência que define a campanha
A campanha transcorreu sob uma pressão de segurança sem precedentes recentes. Segundo o Indepaz (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz), ao encerrar abril de 2026, o país registrava 49 massacres no ano, com 205 mortos — o número mais alto em pelo menos uma década.
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Publicado em 2026-05-28 14:26:11Nos dias que antecederam a eleição, foram registrados ataques com drones e explosivos contra populações civis em zonas rurais, atribuídos às dissidências das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) sob o comando de Iván Mordisco, uma escalada que nenhum candidato ignorou no encerramento da campanha.
O eixo central do debate ficou, assim, delimitado: segurança ou negociação.
Os três candidatos
- Iván Cepeda (Pacto Histórico, 33,4%)
Aos 63 anos, Cepeda é senador e figura emblemática da esquerda colombiana.
Herdeiro político de Gustavo Petro dentro do Pacto Histórico — a coalizão que levou Petro à presidência em 2022 —, sua candidatura representa a continuidade do projeto progressista em curso.
É filho de Manuel Cepeda Vargas, dirigente comunista assassinado em 9 de agosto de 1994 em um crime cometido por agentes do Estado em cumplicidade com grupos paramilitares. Sua história pessoal é inseparável de seu perfil político.
- Abelardo de la Espriella (Independente, 30,9%)
Conhecido como El Tigre, De la Espriella é advogado penalista, fundador do escritório De La Espriella Lawyers Enterprise, e o candidato que captou o voto da extrema direita colombiana.
Sua proposta é a mais radical do campo: fim imediato das negociações com grupos armados, construção de megapresídios de segurança máxima, bombardeio de acampamentos guerrilheiros e aliança com os Estados Unidos e Israel para combater o narcotráfico.
“No meu governo, todo bandido que não se submeter à justiça será eliminado”, declarou. Encerrou sua campanha em Medellín protegido por um vidro à prova de balas.
A contradição que persegue sua candidatura é sua própria trajetória: seu histórico de clientes inclui ex-congressistas condenados por parapolítica, protagonistas do escândalo de corrupção em contratos públicos e figuras do caso DMG — precisamente o tipo de criminalidade que hoje promete erradicar.
O caso mais explosivo é o de Alex Saab: entre 2013 e 2019, De la Espriella representou juridicamente o principal operador financeiro do regime chavista, e uma investigação publicada dias antes da eleição revelou transferências de mais de US$ 370 mil para contas relacionadas ao seu escritório, provenientes de empresas que Saab utilizou para negócios ilícitos na Venezuela.
- Paloma Valencia (Centro Democrático, 12,6%)
Valencia, de 48 anos, é a herdeira mais direta do projeto político de Álvaro Uribe.
Advogada, ex-docente universitária e colunista, venceu as primárias da direita em 8 de março de forma contundente, mas desde então não conseguiu consolidar esse impulso.
As pesquisas mais recentes a situam em um distante terceiro lugar, muito abaixo de De la Espriella, o que sugere que o eleitorado de direita converge crescentemente em torno do candidato independente.
O cenário mais provável: segundo turno
Com Cepeda em 33,4% e De la Espriella em 30,9%, a disputa pelo segundo turno tornou-se muito mais aberta do que indicavam pesquisas anteriores.
A diferença entre o primeiro e o segundo colocado está dentro da margem de erro, e o resultado de domingo pode surpreender. Valencia, com 12,6%, dificilmente avança, mas o destino de seus votos em um eventual segundo turno será determinante.
Caso Valencia seja eliminada, a transferência de seus votos para De la Espriella não é automática: essa é a grande incógnita de um cenário de segundo turno entre Cepeda e De la Espriella.
Embora Valencia tenha prometido apoiar De la Espriella, e Fajardo e Claudia López tenham dito que não apoiarão Cepeda, suas bases eleitorais não se identificam automaticamente com nenhum dos dois blocos.
Cepeda dependeria de capturar o voto de centro sem contar com esses apoios formais. É nessa negociação de segundo turno que a eleição se define de verdade.
Por que o Brasil não pode ignorar isso?
O resultado de domingo reordena o mapa político regional de forma imediata.
Se Cepeda vencer, ou chegar ao segundo turno com vantagem, o eixo Brasília-Bogotá se mantém.
Lula conserva seu aliado ideológico mais próximo na América do Sul. Os governos de esquerda continuam controlando duas das três maiores economias da região. E o projeto progressista demonstra que pode sobreviver eleitoralmente para além de sua primeira geração de líderes.
Se vencer De la Espriella ou Valencia, o mapa muda por completo.
Lula ficará como o último representante relevante desse bloco na região. O isolamento da esquerda brasileira se aprofunda justamente quando Lula enfrenta seu teste eleitoral mais difícil. E o argumento de Flávio Bolsonaro (PL) — de que a virada regional é inevitável e de que o Brasil vai na direção errada — ganha credibilidade a cada resultado adverso nos países vizinhos.
A Colômbia é hoje um ensaio do que o Brasil decidirá em quatro meses. E Lula sabe disso.
* Martín Morales é sócio-diretor da Arko USA