De muitas maneiras, este foi um cessar-fogo que nunca chegou a existir de fato. Mas, com os Estados Unidos e o Irã afirmando ter atingido dezenas de alvos por meio de ataques aéreos, drones e mísseis nas últimas 48 horas, fica cada vez mais difícil prever qual será o próximo passo desse conflito.

Os novos ataques são os mais recentes de uma série de ações e contra-ataques desde que os dois lados concordaram com um frágil cessar-fogo em abril e assinaram um Memorando de Entendimento (MoU, na sigla em inglês) em junho, que deveria abrir caminho para o fim definitivo dos combates.

O Irã afirma que os Estados Unidos não cumpriram a parte que lhes cabia no acordo. Washington, por sua vez, rebate dizendo que é Teerã quem está voltando atrás nas promessas feitas.

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Mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está perdendo a paciência, especialmente nesta semana, irritado com os ataques iranianos enquanto participava da cúpula da Otan, na Turquia. O memorando de entendimento com o Irã “acabou”, declarou Trump na quarta-feira (8), chamando os líderes iranianos de “malucos” e dizendo que eles são uma “perda de tempo”.

Teerã também fez seus próprios alertas. O presidente do Parlamento iraniano e principal negociador do país publicou na rede social X: “Se vocês atacarem, serão atacados.”

O que vemos agora é o Exército dos Estados Unidos bombardeando diversos alvos no Irã, a maioria deles localizada em áreas costeiras. Ainda assim, as forças iranianas continuam capazes de reagir, lançando mísseis e drones contra bases americanas no Kuwait e no Bahrein.

A situação também permanece delicada no Estreito de Ormuz, e especialistas afirmam que os ataques mais recentes provavelmente não serão suficientes para eliminar a capacidade do Irã de ameaçar a navegação em uma das mais importantes rotas de transporte de energia do mundo.

Como os ataques mais recentes de ambos os lados foram menos intensos do que os realizados no início da guerra, no fim de fevereiro, alguns analistas acreditam que ainda existe espaço para um processo de paz.

Outros, porém, veem poucos motivos para otimismo.

“O cessar-fogo tinha poucas chances de sobreviver porque o governo iraniano que o assinou não tem autoridade sobre a IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica)”, afirmou Carl Schuster, ex-diretor do Centro Conjunto de Inteligência do Comando do Pacífico dos Estados Unidos.

A Guarda Revolucionária Islâmica reúne as tropas de elite do Irã e atua de forma independente das Forças Armadas regulares. Ela controla o arsenal de mísseis do país e tem como missão proteger a Revolução Islâmica.

A corporação responde exclusivamente ao líder supremo do Irã e tem demonstrado pouco interesse em firmar um acordo com Washington — pelo menos nos termos que agradariam ao presidente Donald Trump.

“O principal objetivo deles é manter o regime teocrático no poder. Esta campanha aérea não será suficiente para fazê-los mudar isso. Seu alcance é muito limitado”, afirmou o coronel aposentado da Força Aérea dos Estados Unidos Cedric Leighton, analista militar da CNN.

A IRGC também quer manter o controle sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial em tempos de paz, algo que vem fazendo desde os primeiros dias da guerra, provocando uma alta nos preços internacionais do petróleo.

Trump quer que o estreito permaneça aberto e com livre navegação, mas analistas afirmam que o Irã — por meio da Guarda Revolucionária Islâmica — continua em posição de força.

“O único cessar-fogo viável é aquele com o qual a Guarda Revolucionária Islâmica concorde. E isso só acontecerá se a liderança da IRGC acreditar que um cessar-fogo é a única alternativa capaz de garantir a sobrevivência da organização como uma entidade independente”, disse Schuster.

O que está acontecendo no campo de batalha?

As hostilidades mais recentes seguiram um padrão que já se tornou familiar: elas começaram depois que o Irã atacou, na terça-feira, três embarcações comerciais que navegavam em águas territoriais de Omã, próximas ao Estreito de Ormuz, segundo uma autoridade dos Estados Unidos.

O Irã considera o controle dessa via marítima seu principal instrumento de pressão nas negociações e afirma que as embarcações devem utilizar as rotas designadas pelo país e obter sua autorização para atravessar o estreito. No entanto, um número crescente de navios tem optado por uma rota próxima ao litoral de Omã, reduzindo a capacidade de influência do Irã sobre a passagem.

Na visão de Teerã, essa mudança viola o Memorando de Entendimento (MoU), que incluía medidas para a reabertura do estreito, o alívio das pressões financeiras sobre o Irã e o estabelecimento de diretrizes para tratar do programa nuclear iraniano.

O Irã também continuou atacando embarcações, o que levou os Estados Unidos a responder militarmente a cada novo incidente. A atual escalada é a mais intensa desde a assinatura do Memorando de Entendimento.

Após os ataques às embarcações na terça-feira (7), os Estados Unidos lançaram uma nova onda de bombardeios, atingindo 80 alvos em diferentes regiões do Irã. Ao mesmo tempo, Washington voltou a impor sanções ao petróleo iraniano, depois de ter concordado inicialmente em suspendê-las por 60 dias como parte do acordo de cessar-fogo.

O Irã respondeu com ataques contra 85 alvos militares dos Estados Unidos no Bahrein e no Kuwait, informou a Guarda Revolucionária Islâmica na manhã de quarta-feira.

Os ataques também ocorrem durante o funeral de vários dias do ex-líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, morto na operação conjunta entre Estados Unidos e Israel que deu início à guerra.

Uma nova onda de ataques americanos começou na noite de quarta-feira e se estendeu pela madrugada de quinta-feira (9), com explosões registradas em diferentes regiões do Irã. Os Estados Unidos informaram, na quinta-feira, que outros 90 alvos foram atingidos.

Enquanto isso, Bahrein e Kuwait acionaram sirenes alertando para uma ameaça iminente, indicando que a retaliação prometida pelo Irã pode já ter começado.

O que eles estão atacando, e por que?

Até agora, a grande maioria dos ataques dos Estados Unidos ocorreu na costa sul do Irã, ao longo do Estreito de Ormuz, com o objetivo de enfraquecer a capacidade iraniana de controlar essa importante rota marítima. Alguns alvos mais ao interior do país, inclusive ao norte de Teerã, também foram atingidos.

Entre os alvos estão sistemas de defesa aérea, radares, capacidades de lançamento de mísseis antinavio e dezenas de pequenas embarcações, “para reduzir a capacidade do Irã de continuar atacando o comércio internacional que passa por esse corredor estratégico”, segundo o Comando Central dos Estados Unidos.

Especialistas alertam, no entanto, que esses ataques podem ter apenas um impacto limitado sobre a capacidade do Irã de atuar na região do estreito, fazendo uma comparação com os bombardeios realizados no início da guerra.

“Se as operações em larga escala não conseguiram impedir o Irã de ameaçar o Estreito de Ormuz, essa opção, com um emprego menor de forças, também não conseguirá”, afirmou Peter Layton, pesquisador do Griffith Asia Institute e ex-oficial da Força Aérea Real Australiana.

“Esses ataques servem, na prática, para demonstrar insatisfação com os negociadores iranianos. Eles são eficazes — por exemplo, cerca de 60 pequenas embarcações foram destruídas —, mas é altamente improvável que mudem a forma de pensar da liderança iraniana”, afirmou.

James Stavridis, almirante aposentado da Marinha dos EUA que havia navegado pelo Estreito de Ormuz muitas vezes, concordou. “Você pode reduzir significativamente a capacidade deles, mas, nesta nova era dos drones, não pode eliminar essa capacidade”, afirmou.

Alex Plitsas, diretor do Programa de Contraterrorismo do Atlantic Council, disse que as sanções restabelecidas poderiam ter uma influência maior do que ataques aéreos, considerando o quão debilitada está a economia do Irã.

Donald Trump sob pressão

O futuro do conflito permanece incerto, para ambos os lados.

Nos últimos meses, Trump fez repetidas ameaças contra Teerã, incluindo a possibilidade de retomada de uma guerra em larga escala, e depois recuou, mas agora ele demonstra uma frustração evidente. “Toda vez que eles nos atingem, nós os atingimos 20 vezes”, disse Trump na quarta-feira.

Ele está sob forte pressão para encerrar a guerra, que causou grandes danos à economia global e provocou o maior choque de oferta de petróleo da história.

Também há consequências internas para suas ações militares, que renderam a Trump duras críticas e uma deterioração da opinião pública até mesmo entre republicanos e apoiadores do movimento MAGA.

Isso ficou evidente no mês passado, quando o Senado aprovou uma resolução destinada a retirar as forças dos EUA das hostilidades, em uma clara repreensão a Trump, embora a decisão tenha sido revertida apenas um dia depois, com alguns parlamentares republicanos mudando seus votos após conversarem com Trump e seus aliados.

A sombra da guerra pairará sobre as próximas eleições de meio de mandato, em novembro, algo que os republicanos vêm demonstrando preocupação em privado há meses, diante do crescente descontentamento dos eleitores com o conflito.

O Irã também está em uma situação delicada.

As enormes multidões que participaram do cortejo fúnebre de Khamenei nesta semana, muitas delas pedindo vingança contra os EUA e Israel, são uma demonstração evidente de que o regime da República Islâmica permanece firmemente no poder, apesar dos golpes que sofreu do exército mais poderoso do mundo. Muitos conservadores radicais iranianos já eram contrários ao memorando de entendimento desde o início.

Mas os líderes de Teerã também sabem que sua economia está em crise e que não conseguem superar militarmente os Estados Unidos. O que podem fazer é usar seu principal ponto de pressão — o Estreito de Ormuz — para aumentar a pressão.

A questão agora é se essas tensões podem ser reduzidas — ou se irão explodir com um retorno a uma guerra total.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-eua-e-ira-retomaram-ataques-o-que-acontece-agora/