Análise: Crise EUA-Ucrânia se aprofunda em disputa sobre Starlink

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky decidiu retomar ataques a refinarias russas enquanto Trump pressiona Kiev e defende acordo de diesel com Moscou

A pior crise nas relações Estados Unidos-Ucrânia desde o colapso no Salão Oval no ano passado se deteriora ainda mais em torno de uma disputa sobre quem ordenou a interrupção de um sistema militar ucraniano crítico que opera no serviço de internet Starlink, de Elon Musk.

O presidente Volodymyr Zelensky, por sua vez, avisa que retomará os ataques a refinarias de petróleo russas, que o presidente Donald Trump insiste estarem agravando os altos preços do diesel e da gasolina às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA.

A nova ruptura reflete uma dura realidade para a Ucrânia enquanto ela luta pela sua sobrevivência: o esforço de Trump para reduzir os custos energéticos politicamente devastadores de sua guerra, no Irã, está tornando mais difícil e mais perigoso para a Ucrânia vencer a sua própria.

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Trump atacou o líder ucraniano em uma entrevista à Newsmax na quinta-feira (15).

"Não sou um grande fã de Zelensky. Eles destruíram aquele país", disse ele, aparentemente culpando os resultados devastadores da guerra a uma nação que se defende de invasores russos. "Acho Zelensky mais difícil de lidar do que Putin."

Esta não é a primeira vez que Zelensky e a Ucrânia entram em conflito com Trump às vésperas de uma eleição americana. Em um telefonema em 2019, o presidente usou a perspectiva de ajuda militar para tentar pressionar Zelensky a abrir uma investigação sobre Joe Biden e seu filho Hunter.

O mais recente envolvimento da Ucrânia na política americana está alimentando preocupações em Washington e na Europa de que o presidente não está apenas priorizando suas próprias necessidades políticas, mas agora está tomando uma série de medidas para ajudar ativamente Putin.

A crise mais recente entre Washington e Kiev começou quando Trump, na última sexta-feira (9), anunciou um acordo que burla sanções para comprar diesel da Rússia.

O governo Trump então alertou a Ucrânia no fim de semana que os EUA poderiam suspender o compartilhamento de inteligência para suas operações militares e bloquear compras europeias de armas fabricadas nos EUA caso ela não interrompesse os ataques de longo alcance às refinarias da Rússia.

Em meio a uma reação furiosa, inclusive entre muitos republicanos, Trump anunciou um cessar-fogo entre a Rússia e a Ucrânia cobrindo instalações de energia — mas depois sinalizou que não havia informado os perplexos combatentes sobre isso com antecedência.

A Ucrânia respeitou a pseudo-trégua, apenas para a Rússia lançar devastadores ataques aéreos e com drones contra suas usinas de energia, deixando 600.000 pessoas sem luz. Na terça-feira (13), Zelensky afirmou que seu governo não recebeu o aviso prévio habitual dos EUA antes de um ataque russo com míssil balístico atingir uma importante usina de energia em Kyiv e danificar um edifício residencial.

O confronto com Washington deixou a Ucrânia especialmente amargurada porque ocorreu em um contexto de incessantes ataques de mísseis contra civis que não receberam nenhuma condenação significativa dos EUA.

Katya Futyma, uma moradora de Kyiv de 23 anos, disse ao repórter Jim Sciutto, da CNN, que os ataques de mísseis na capital estavam se tornando cada vez mais assustadores. "Você nunca sabe, a qualquer segundo pode atingir talvez a sua casa, talvez a casa do seu (vizinho)", disse ela. Questionada sobre por que os mísseis balísticos russos estavam chegando agora sem aviso, ela respondeu: "Acho que é político… os EUA nos avisavam antes."

A vulnerabilidade dos civis foi reforçada na quinta-feira (15) quando a CNN noticiou que a Ucrânia ficou sem mísseis para o sistema de defesa aérea Patriot, fabricado pelos EUA. Trump havia levantado anteriormente neste ano a tentadora possibilidade de licenciar a Ucrânia para produzir suas próprias versões da arma vital. Mas ele não deu seguimento a uma medida que certamente irritaria a Rússia.

Na quinta-feira, a paciência de Zelensky se esgotou e ele anunciou a retomada dos ataques a instalações energéticas russas, que têm gerado filas em postos de gasolina em partes do país, enquanto busca aumentar a pressão sobre Putin.

"Acabou", disse ele ao Financial Times em entrevista. Zelensky acusou os EUA de vislumbrar mais acordos com Putin, possivelmente por gás, o que ele previu seria impopular na América. "Todo mundo vai querer perguntar como pode ser que algumas pessoas estão sobrevivendo, lutando, morrendo — e vocês fazem… negócios com os caras com tamanha agressão", disse ele ao jornal.

Restrições limitaram a velocidade dos drones ucranianos

A polêmica em torno do sistema SpaceX Starshield, uma versão militar do serviço Starlink de Musk, não apenas escalou significativamente o furor em Washington e Kyiv. Ela levantou novas questões sobre o papel global e a influência do homem mais rico do mundo, cujas tecnologias se tornaram indispensáveis em uma nova era de guerra.

Os generais ucranianos ficaram chocados com as limitações impostas ao sistema Starshield, que é de propriedade e está sob controle não de Musk, mas do governo dos EUA.

As restrições limitaram efetivamente a velocidade dos equipamentos militares ucranianos, incluindo drones, e reduziram a capacidade das forças armadas de se comunicar e de operar aviões de guerra e helicópteros. Essas limitações representaram uma vantagem militar significativa para as forças russas no campo de batalha.

Cresce o mistério em Washington sobre o que levou à desaceleração. Musk afirmou em uma publicação no X na quarta-feira (14) que "quaisquer limites de velocidade ou uso são decididos pelos militares dos EUA e, em última instância, pelo presidente."

Mas dois altos funcionários americanos disseram à CNN que a ordem para limitar o Starshield não partiu de Trump. Alguns funcionários estão cada vez mais convencidos de que Musk foi, em grande parte, o responsável.

Zelensky não tem dúvidas de que as limitações foram deliberadas. "Não foi um problema técnico", disse ele ao Financial Times.

Crescem as dúvidas sobre os motivos de Trump

O episódio do Starshield ocorreu após movimentos e declarações recentes de Trump que consternaram aliados que acreditam que o único caminho para encerrar a guerra está em pressionar Putin — que lançou uma invasão ilegal à Ucrânia em 2022 numa tentativa de destruir a soberania da ex-república soviética.

Os críticos americanos de Trump argumentam que o acordo do diesel é apenas o exemplo mais recente de seu hábito de apaziguar Putin, uma vez que fará pouco para reduzir os preços antes das eleições de meio de mandato. Mas, se cumprido em sua totalidade, o acordo injetará bilhões de dólares na economia russa após anos de sanções internacionais e provavelmente será usado para fortalecer a máquina de guerra russa.

"Trump está desesperado para fazer qualquer coisa que ajude a melhorar sua posição e a posição dos republicanos que concorrem ao Senado nessas eleições de meio de mandato", disse à CNN News Central na quarta-feira o senador democrata de Delaware Chris Coons.

O governo afirma que o presidente ainda busca oportunidades para construir a paz. "Eu acho que, na verdade, Putin quer fazer um acordo mais do que Zelensky", disse Trump na segunda-feira (12).

Mas não houve nenhum sinal, desde que Trump voltou ao cargo no ano passado, de que Putin moderou sua posição — de que a Ucrânia deveria ceder territórios críticos no leste do país que as forças do Kremlin ainda não capturaram — em troca do fim da guerra. Este é um acordo que Zelensky jamais poderia aceitar: desonraria os mortos de guerra da Ucrânia e permitiria que a Rússia estabelecesse uma cabeça de ponte para uma futura invasão.

Mas há uma interpretação alternativa para essa mais recente e contundente aplicação da política "America First" de Trump.

Tom Keatinge, diretor do Center for Finance and Security do Royal United Services Institute em Londres, disse à CNN Internacional na quinta-feira: "Donald Trump está colocando sua posição eleitoral acima da segurança, da proteção e das vidas do povo ucraniano, e isso não deve passar despercebido pelos telespectadores e pelos formuladores de políticas em ambos os lados do Atlântico."



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-crise-eua-ucrania-se-aprofunda-em-disputa-sobre-starlink/