Análise: Ataques dos EUA ao Irã expõem fragilidade de negociações
Com mais de 80 dias de conflito, analistas debatem os ataques americanos e a fragilidade das negociações entre Washington e Teerã
Os Estados Unidos realizaram novos ataques contra instalações iranianas, incluindo lançadores de mísseis e embarcações, alegando autodefesa, enquanto as negociações entre Washington e Teerã permanecem sem desfecho claro. O conflito, que já dura mais de 80 dias, envolve disputas sobre o programa nuclear iraniano, o bloqueio do Estreito de Ormuz e a complexa teia de relações regionais.
A ação militar americana ocorreu no mesmo momento em que uma delegação iraniana de alto nível desembarcava em Doha, no Catar, para negociações mediadas pelos catarianos. Segundo informações de agências internacionais, parte das embarcações atacadas estaria instalando minas navais na região.
Negociações travadas em pontos cruciais
De acordo com a reportagem do correspondente da CNN Internacional na Casa Branca, Kevin Liptak, as duas partes continuam emperradas em questões da redação do acordo final. A presença da delegação iraniana no Catar gerou esperança de que os mediadores pudessem desbloquear o impasse, mas a expectativa, pelo menos do lado americano, é de que as negociações ainda podem se estender por mais alguns dias.
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Publicado em 2026-05-26 09:22:54Um dos principais pontos de discordância envolve o programa nuclear iraniano. Enquanto os americanos afirmam que o Irã concordou, em princípio, em abrir mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido, os iranianos sustentam que esse tema ainda não foi discutido em detalhes.
Além disso, o Irã quer mais especificidades sobre quais sanções os Estados Unidos estão dispostos a levantar e quais ativos seriam descongelados. A resposta americana, resumida na frase "no dust, no dollars", é de que qualquer alívio financeiro só virá após avanços concretos nas questões nucleares.
O arcabouço legal por trás dos ataques
O professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin explicou o contexto jurídico que embasa as ações militares americanas. Segundo ele, a guerra teve início em 28 de fevereiro, com um cessar-fogo entre EUA e Irã estabelecido em 8 de abril. Israel e o Hezbollah, porém, continuaram os combates, e um cessar-fogo nessa frente só veio em 17 de abril — ainda assim, as hostilidades persistiram.
Brustolin detalhou que, ao iniciar as operações militares, os Estados Unidos invocaram o artigo 2º da Constituição americana, que confere ao presidente os poderes de comandante em chefe. Pela "War Powers Resolution", aprovada após a Guerra do Vietnã para limitar esses poderes, o presidente pode agir militarmente em emergências, mas deve notificar o Congresso em 48 horas e concluir a operação em 60 dias.
"Todas as vezes que ocorrem esses ataques, os Estados Unidos afirmam que o cessar-fogo não foi interrompido", explicou Brustolin, acrescentando que cada nova ação é enquadrada como operação defensiva para se manter dentro dos limites legais.
Objetivos de guerra não cumpridos
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna apontou que nenhum dos principais objetivos declarados para o conflito foi alcançado. O desmantelamento do arsenal de mísseis convencionais do Irã não aconteceu, e o estoque destruído está sendo reposto. O fim das relações entre o Irã e seus grupos aliados, como o Hezbollah e os Houthis, também não se concretizou.
A mudança de regime, outro objetivo citado, sequer está em pauta. "O Irã continua projetando poder, tanto com a geografia controlando o Estreito de Ormuz, quanto com metade do seu estoque de mísseis em forma", afirmou Brustolin.
Para Sant'Anna, o Irã busca demonstrar que a guerra tornou o mundo um lugar pior do que estava antes, e por isso não facilita as tentativas de acordo. "No fim de semana, o presidente Donald Trump falou que um acordo era iminente; o Irã disse que não", observou Sant'Anna, ressaltando que os iranianos sistematicamente desmentem as declarações americanas para dificultar a posição de Trump.
O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, segue penalizando a economia global, com potenciais consequências eleitorais nos Estados Unidos em novembro.
Israel e a complexidade regional
Brustolin destacou ainda que os israelenses parecem estar dificultando as negociações ao intensificar os bombardeios no Líbano. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se negou a cumprir os termos do primeiro cessar-fogo, e o Hezbollah, por sua vez, também provoca e ataca Israel, demonstrando interesse no tensionamento.
A questão dos Acordos de Abraão — que pressupõem normalização das relações entre países da região e Israel — foi apontada como outro ponto de tensão. Países como o Paquistão recusaram explicitamente aderir aos acordos, enquanto outros nem responderam. "Trump não tem condições de impor isso aos países muçulmanos após a destruição da Faixa de Gaza", afirmou Sant'Anna.