Análise: Arábia Saudita tem poucas opções contra os houthis
Ações do grupo apoiado pelo Irã podem arrastar o reino a um conflito mais amplo com altos custos
Os houthis, grupo alinhado ao Irã no Iêmen, afirmaram ter atacado a Base Aérea Rei Khalid, em Khamis Mushait, na Arábia Saudita. Segundo o porta-voz militar do grupo, Yahya Saree, a ação teve como alvo instalações e infraestrutura militares.
Os houthis, que controlam as áreas mais populosas do Iêmen e grande parte do norte do país, têm lançado ataques contra a Arábia Saudita desde que anunciaram um bloqueio naval contra Riad, em julho. As ofensivas têm como alvo embarcações sauditas no Mar Vermelho.
A Defesa Civil da Arábia Saudita suspendeu os alertas de emergência nesta segunda-feira (14), após emitir avisos sobre possíveis riscos em quatro cidades do sul do país em meio ao aumento dos ataques houthis.
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Publicado em 2026-09-14 08:02:52Os alertas foram emitidos para Najran, Khamis Mushait, Jazan e Abha. Posteriormente, a Defesa Civil voltou a emitir avisos para Khamis Mushait e Abha antes de suspendê-los novamente.
Respostas são limitadas
O rápido avanço dos houthis, grupo apoiado pelo Irã, no Iêmen e os ataques contra a Arábia Saudita deixaram o reino do Golfo com poucas opções de resposta — e todas elas envolvem custos elevados.
A principal mensagem de Riad é que o país não quer uma guerra em grande escala, segundo especialistas. Ainda assim, o comportamento cada vez mais ousado dos houthis pode arrastar a Arábia Saudita para um conflito mais amplo.
Todos os sinais agora “apontam para uma retaliação saudita em larga escala, e essa possibilidade aumenta a cada dia”, afirmou à CNN Mohammed Al-Basha, especialista em Iêmen e consultor de riscos em Washington.
“Neste momento, eles não têm opção”, disse.
Nesta semana, o grupo rebelde iemenita tomou a estratégica ilha de Perim, na entrada do Mar Vermelho, além da cidade portuária de Mocha, em uma tentativa de controlar o estreito de Bab el-Mandeb, uma importante rota de energia.
Pouco depois, o principal oleoduto de petróleo da Arábia Saudita foi fechado após ser atacado por drones vindos do Iraque. Nenhum grupo assumiu a responsabilidade, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atribuiu a ação a Teerã, que mantém grupos aliados atuando no Iraque.
A Arábia Saudita passou a utilizar mais o oleoduto Leste-Oeste desde que a guerra com o Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz. A estrutura passou a desviar cerca de 5 milhões de barris de petróleo por dia que seriam destinados a petroleiros aguardando no Golfo Pérsico.
O episódio parece reforçar preocupações expressas pelo reino no início do mês passado, quando um alto funcionário disse à CNN que a Arábia Saudita se preparava para “múltiplos ataques coordenados” de milícias iraquianas que atuariam em conjunto com os houthis apoiados pelo Irã.
No papel, parece haver um desequilíbrio: de um lado, a rica Arábia Saudita, com forças armadas modernas e bem equipadas; de outro, um grupo rebelde de um Iêmen empobrecido. Mas os houthis se mostraram excepcionalmente difíceis de expulsar das áreas que controlam.
Frequentemente vistos pelo Ocidente e por alguns países do Golfo como um grupo aliado ao Irã e uma milícia “improvisada”, os houthis passaram anos desenvolvendo suas capacidades militares e táticas de combate. O grupo ganhou popularidade em partes do Oriente Médio após atacar Israel durante a guerra em Gaza, iniciada pelo ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023.
As exigências dos houthis continuam as mesmas: eles querem o fim das tentativas sauditas de isolar as grandes áreas do norte do Iêmen sob controle do grupo por meio de um bloqueio aéreo e econômico. Embora sejam aliados do Irã, também possuem uma agenda própria.
Nasr al-Din Amer, chefe da agência estatal de notícias Saba, administrada pelos houthis, disse à CNN na sexta-feira (11) que o grupo continuará “pressionando” a Arábia Saudita até que o país “rompa o cerco injustamente imposto pelo inimigo saudita há 12 anos” — sinalizando uma clara intenção de ampliar a escalada.
O Iêmen mergulhou em uma crise em 2014, quando os houthis tomaram a capital, Sanaa, e forçaram o governo reconhecido internacionalmente ao exílio. No ano seguinte, a Arábia Saudita liderou uma campanha militar para expulsar os rebeldes e continuou apoiando o governo reconhecido internacionalmente, enquanto mantinha um bloqueio que prejudicou fortemente as áreas controladas pelos houthis. O Irã, por sua vez, forneceu armas e treinamento ao grupo e exerce influência sobre algumas de suas decisões.
Apesar dos avanços dos houthis nos últimos dias, a Arábia Saudita ainda não respondeu com força total, levantando dúvidas sobre quais serão seus próximos passos.
As ações do reino nos próximos dias podem significar um retorno à guerra em grande escala, além de provocar consequências importantes para o conflito entre Estados Unidos e Irã.
“Ir com tudo”
A Arábia Saudita enfrenta um grupo apoiado pelo Irã que busca ampliar seu controle territorial no Iêmen. Quando se trata de opções, o leque é limitado.
“A Arábia Saudita realmente tem poucas opções no conflito com os houthis”, disse à CNN Cinzia Bianco, pesquisadora visitante do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Uma delas é aumentar a escalada, mas isso teria custos elevados para o reino.
Se Riad “decidir ir com tudo”, afirmou Bianco, o conflito poderia se transformar em uma guerra sem prazo definido, semelhante à sangrenta guerra civil do Iêmen.
O conflito prolongado transformou o Iêmen na pior crise humanitária do mundo, com cerca de 22 milhões de pessoas, aproximadamente metade da população, necessitando atualmente de assistência humanitária.
Uma guerra em grande escala entre a Arábia Saudita e os houthis também provavelmente envolveria o Irã, que está em guerra com os Estados Unidos desde fevereiro.
“Seria difícil limitar o conflito a uma situação exclusivamente iemenita, em vez de tratá-lo como mais um capítulo da guerra mais ampla entre Estados Unidos e Irã, na qual a Arábia Saudita passaria a ser um combatente ao lado dos EUA”, disse Bianco.
Enquanto isso, é improvável que os Estados Unidos intervenham militarmente contra os houthis, especialmente em meio à crise em Ormuz, às próximas Eleições de Meio de Mandato e ao debate interno sobre o uso de recursos americanos no Oriente Médio.
Trump “não está em posição de ampliar seu compromisso com a região neste momento político”, afirmou Bianco.
Nos bastidores, os Estados Unidos vêm resistindo à pressão saudita para se envolver nos combates renovados.
No sábado (12), Trump afirmou que os houthis haviam procurado seu governo e indicado que não queriam que os EUA se envolvessem diretamente no conflito.
“Eles prefeririam que não estivéssemos envolvidos, e estão deixando a maioria dos navios passar. Há apenas um país com o qual eles não estão muito satisfeitos, e vamos resolver isso”, disse Trump.
Uma fonte disse à CNN que o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, conversou duas vezes com Trump na quinta-feira (10) e pediu que ele atacasse os houthis enquanto o grupo avançava em direção ao Mar Vermelho. Trump recusou.
Os Estados Unidos, porém, enviaram cerca de 100 assessores militares à Arábia Saudita para fornecer inteligência à campanha militar do país contra os houthis, segundo várias fontes familiarizadas com a operação ouvidas pela CNN nesta semana.
Nawaf Obaid, pesquisador sênior do Departamento de Estudos de Guerra do King's College London e ex-assessor do governo saudita, disse à CNN que “o pedido saudita nunca foi por ataques aéreos americanos”, mas apenas por inteligência. “Até o momento, esse apoio foi limitado”, afirmou.
“As soluções políticas se esgotaram”
Outra possibilidade seria tentar encontrar uma saída política para o conflito, mas pode ser tarde demais para isso.
Nos últimos meses, a Arábia Saudita adotou uma postura de “paciência estratégica”, segundo Bianco, com Riad emitindo repetidos alertas e condenações tanto aos houthis quanto aos iranianos, sem resultado.
Em resposta ao ataque contra o oleoduto Leste-Oeste, o Ministério das Relações Exteriores saudita afirmou que “o reino optou por não responder neste momento e apoiar os esforços do governo iraquiano”, de cujo território partiu o ataque, mas que “reserva-se o direito de tomar todas as medidas necessárias para proteger sua soberania”.
Bianco afirmou que a Arábia Saudita “esgotou as soluções políticas”.
Mesmo que Riad chegasse a um acordo com os houthis, isso teria um custo elevado.
Al-Basha afirmou que um acordo provavelmente equivaleria à aceitação completa das exigências dos houthis. “E é uma submissão muito cara. É basicamente uma rendição”, disse.
Ainda não está claro quando a Arábia Saudita lançará sua próxima ação de retaliação, mas as consequências devem ultrapassar as fronteiras do Iêmen e do próprio reino.
“A campanha militar do governo iemenita contra os houthis, apoiada pela coalizão liderada pela Arábia Saudita, já está em andamento, e espero que se intensifique significativamente nos próximos dias, ou até horas”, disse à CNN Salman Al-Ansari, analista geopolítico saudita. Segundo ele, “também podemos ver grandes surpresas em várias frentes”.
No entanto, os sauditas não iniciarão uma guerra em grande escala “sem um apoio internacional firme, contínuo e inequívoco”, afirmou Al-Ansari.
A comunidade internacional “cometeu um erro grave ao não levar em conta os alertas anteriores da Arábia Saudita e do governo iemenita” sobre os houthis, acrescentou. “Agora, Riad espera que a comunidade internacional mude de rumo e apoie plenamente a libertação do Iêmen dessa milícia nociva.”
Outros especialistas afirmam que, se os houthis continuarem ampliando a escalada, o país do Golfo terá de entrar em guerra — com ou sem apoio internacional.
“Os sauditas estão sob ataque dos houthis e da Resistência Islâmica no Iraque — eles não têm opção”, disse Al-Basha.
“Eu não gostaria de estar no lugar deles.”
*Com informações da Reuters