A quatro dias do segundo turno, os dois campos encontraram consolo no mesmo lugar.

No entorno de Lula (PT), fala-se dos 33,4 milhões de eleitores que não foram votar no dia 4, quinze para cada voto da vantagem de 2,2 milhões obtida por Flávio Bolsonaro (PL). No entorno de Flávio, conta-se com o desânimo do adversário. É compreensível que cada lado procure no eleitor ausente o reforço que lhe falta. Os números, porém, recomendam aos dois lados mais prudência.

A história ajuda pouco a quem espera uma enxurrada de retornos. Dos sete segundos turnos presidenciais desde 1989, a abstenção subiu em seis, em média perto de dois pontos, e em 2010 superou três. A única queda, em 2022, ficou em 0,36 ponto.

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Estudo do BTG Pactual divulgado na terça, assinado pelos economistas Tiago Berriel e Mateus Della, calcula que, para virar apenas com os ausentes, Lula precisaria de 12,6 milhões de novos eleitores votando nele na proporção de 70 para 30. A abstenção teria de cair quase oito pontos, algo sem paralelo na série.

Os ausentes também não formam uma tropa de reserva. A abstenção de 21,08%, a mais alta desde 1998, inclui idosos dispensados de votar, doentes e quem mudou de cidade sem transferir o título. Viagem e saúde respondem por mais de um terço das faltas, segundo o Datafolha.

As pesquisas indicam que os que pretendem voltar preferem Lula. Na Quaest do dia 14, a vantagem é de cinco pontos; na rodada mais recente do Ipespe, é larga. O problema está no volume. Trata-se de uma fatia pequena da amostra, e o mesmo levantamento mostra Flávio um ponto melhor entre os eleitores que garantem comparecer.

A geografia agrava o quadro petista. O partido já levou às urnas boa parte do seu eleitorado no primeiro turno, e nos redutos onde tivera 70% ou mais dos votos a abstenção foi a menor desde 2014. Ainda assim, os 11,1 milhões de votos de saldo no Nordeste não cobriram os quase 13 milhões que Flávio abriu no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.

Os ausentes que restam estão concentrados em São Paulo, Minas e Rio, onde a abstenção subiu, estados cujos governadores eleitos, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Cleitinho Azevedo (Republicanos) e Douglas Ruas (PL), estão com Flávio. Quem tem estrutura para buscar esse eleitor é o adversário do presidente.

O caminho mais curto para Lula passa por quem votou em Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). São 7,2 milhões de votos válidos, dos quais ele recebe hoje entre 35% e 43%. Para empatar só por essa via, precisaria de 70%, num grupo em que 76% já se dizem decididos.

Cada eleitor que deixa Flávio e passa a Lula reduz a diferença em dois votos, e mesmo assim, nos 27 cenários simulados pelo BTG com fluxos normais, Lula não passa à frente em nenhum.

Fica em aberto o que as pesquisas não alcançam. Em 2022, o saldo entre os turnos foi de 580 mil votantes, embora pelo menos 2,3 milhões tenham entrado e 1,7 milhão saído. Se os eleitores de Flávio desistirem em proporção maior que os de Lula, cada dez pontos de diferença nessa conta tiram dele cerca de um milhão de votos. Nenhum instituto mede isso com segurança.

Desde 1989, quem liderou o primeiro turno venceu o segundo. A campanha que gastar estes quatro dias à procura do eleitor ausente estará trabalhando sobre a menor das variáveis. O domingo será decidido por quem compareceu no dia 4, votou em outro nome e ainda não se convenceu.

* Murillo de Aragão é advogado, cientista político e doutor em sociologia, CEO da Arko Advice, Sócio Fundador da MDA LAW Advocacia e presidente do Instituto Brasileiro de Direito Legislativo



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/analise-a-aritmetica-da-ausencia/