O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mencionou o nome de Joe Biden quase 900 vezes este ano, segundo um levantamento da agência de notícias Reuters, mantendo seu antecessor no centro do debate enquanto os republicanos lutam para preservar seu controle sobre o Congresso nas Eleições de Meio de Mandato de novembro.

Trump fez de Biden, um democrata, seu alvo político — citando-o, em média, três vezes por dia em discursos, comentários e postagens na Truth Social — e o culpou por problemas que vão desde a inflação e a imigração até a escassez de munições, mesmo com o ex-presidente, aos 83 anos e enfrentando um câncer em estágio 4, tendo se afastado em grande parte da vida pública.

A tática reflete o esforço de Trump para manter os americanos focados nas supostas falhas da administração anterior, em vez de nas preocupações dos eleitores com sua própria presidência, faltando apenas seis semanas para as eleições de 3 de novembro.

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Os democratas “proporcionaram a vocês quatro anos de desastre, caos e morte sob o comando do ‘sonolento’ Joe Biden”, disse Trump, aos 80 anos, a apoiadores do partido na convenção republicana de meio de mandato em Dallas, em 9 de setembro.

“Donald Trump sempre precisa de um contraponto, e é melhor ter uma pessoa só do que um partido inteiro”, disse o estrategista republicano Ryan Williams. “Ele fez isso durante todo o seu mandato. Ele pode usar essa estratégia para tentar desviar a atenção de quaisquer problemas que esteja enfrentando atualmente.”

O levantamento da Reuters analisou as menções de Trump a Biden desde janeiro, quando o ciclo eleitoral de 2026 começou a ganhar forma.

Os resultados ressaltam o esforço do atual presidente em manter o foco em Biden num momento em que seus próprios índices de aprovação caíram, a guerra com o Irã se prolonga e o custo de vida permanece persistentemente alto.

Desde 1º de janeiro, Trump citou Biden pelo nome pelo menos 890 vezes, em quase 200 eventos e entrevistas e cerca de 190 postagens na Truth Social este ano, constatou o levantamento da Reuters.

Ele mencionou Biden pelo menos 210 vezes ao falar sobre economia, 168 vezes sobre imigração e 138 vezes sobre política externa e questões de segurança nacional, além de culpá-lo por uma série de outras questões internas.

Ele criticou o ex-presidente em eventos tão variados quanto a estreia de um filme da primeira-dama Melania Trump, o Café da Manhã Nacional de Oração e a tradicional Caça aos Ovos de Páscoa no gramado sul da Casa Branca.

Durante a reunião da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na Turquia, em julho, Trump estabeleceu um recorde de menções em um único dia: 16.

Ele culpou Biden pela escassez de munições militares, pelos custos de moradia e por denegrir a indústria siderúrgica.

Embora presidentes frequentemente culpem seus antecessores — como Biden fez com Trump —, o foco de Trump em Biden, vinte meses após o início de seu segundo mandato, destaca-se tanto pela persistência quanto pela frequência.

“Joe Biden é o pior presidente da história americana, e o presidente Trump tem passado todos os dias consertando a bagunça deixada por ele e tornando os Estados Unidos da América mais fortes do que nunca”, disse Olivia Wales, porta-voz da Casa Branca, defendendo as constantes referências de Trump ao seu antecessor.

T.J. Ducklo, porta-voz de Biden, recusou-se a comentar para esta reportagem.

No entanto, Meghan Hays, ex-autoridade de alto escalão da Casa Branca durante o governo Biden, criticou o que chamou de “obsessão” de Trump.

“Novecentas menções em menos de um ano não é governar; é uma obsessão. Joe Biden o derrotou uma vez, e Trump ainda não superou isso. Ele está mais focado em rediscutir 2020 do que em reduzir o custo da gasolina e dos alimentos para o povo americano”, disse ela, referindo-se à vitória de Biden na eleição de 2020, que Trump alega falsamente ter sido roubada dele.

Recuo na política econômica

Em fevereiro, Trump disse a um entrevistador que a economia era mérito seu.

Agora, com pesquisas de opinião mostrando que os americanos estão insatisfeitos com a gestão econômica de Trump, ele atribui a Biden a culpa pelos problemas de custo de vida.

“Espero que todos percebam que os aumentos de preços em toda a América foram causados ??pelo ‘Biden Sonolento’ e pela administração Biden, e não por ‘TRUMP’”, publicou o presidente na Truth Social na semana passada.

Alguns apoiadores de Trump na convenção de meio de mandato em Dallas disseram à Reuters que acreditavam que Biden era o culpado pela inflação, 20 meses após deixar o cargo.

Pesquisas de opinião, no entanto, sugerem que é Trump quem atrai a ira da maioria dos americanos em relação à inflação.

A inflação disparou para mais de 9% durante a presidência de Biden, impulsionada em parte pelas perturbações nas cadeias de suprimentos causadas pela pandemia, pela invasão russa da Ucrânia e pelos gastos da administração Biden para estimular a economia abalada pela Covid-19

Trump venceu a eleição principalmente com a promessa de reduzir os preços, mas eles permaneceram persistentemente altos, em parte devido à sua guerra contra o Irã.

Com uma média de 4,95% ao mês durante os quatro anos de Biden, a inflação interanual teve média de 2,94% ao mês desde que Trump assumiu o cargo e ficou em 3,4% no mês passado.

“A política trata sempre do futuro e nunca do passado; portanto, culpar o antecessor não funciona. Especialmente para quem está no cargo. Ele precisa defender seu próprio histórico para ajudar seu partido”, disse o veterano estrategista republicano Charlie Black, que por vezes criticou Trump.

Imigração

Depois da economia, a imigração é o tema em que Trump mais frequentemente cita Biden.

À medida que a campanha ampliada de deportações de Trump provocava críticas e protestos em todo o país neste ano, ele tentava repetidamente transferir a responsabilidade para seu antecessor, argumentando que as políticas de Biden haviam permitido níveis recordes de imigração ilegal na fronteira entre os EUA e o México.

Depois que agentes federais de imigração mataram dois cidadãos americanos que protestavam em Minnesota, em janeiro, por exemplo, Trump culpou as “políticas de fronteiras abertas de Biden” por “todo o tempo que passamos falando sobre Minnesota”.

O presidente fala tanto sobre o alto nível de travessias na fronteira durante a gestão Biden e sobre as políticas de imigração mais rigorosas de sua própria administração que, recentemente, admitiu que seus assessores na Casa Branca tentavam fazê-lo mudar de assunto.

“Até mesmo os redatores dos meus discursos dizem: ‘Senhor, ninguém quer mais ouvir falar da fronteira. O senhor já resolveu isso'”, relatou Trump no Salão Oval, em agosto. “Biden não conseguiu fazer isso”, acrescentou.

Conflitos no Irã e na Ucrânia

Sob pressão para encerrar a guerra contra o Irã que iniciou há quase sete meses, Trump mencionou Biden pelo menos 37 vezes.

Ele acusa seu antecessor de não ter sido suficientemente agressivo com Teerã durante sua presidência (2021-2025) e de ter “criado um monstro com o Irã” em 2015, por meio do acordo nuclear negociado pelo então presidente Barack Obama enquanto Biden era vice-presidente.

A política de Biden em relação ao Irã consistia em aumentar a pressão econômica sobre Teerã — uma postura que Trump adotou agora, em meio a confrontos esporádicos com o país.

Inicialmente, Trump negou as notícias de que os estoques americanos de mísseis e interceptadores estavam diminuindo rapidamente devido à guerra, mas, em maio, passou a culpar Biden pela escassez.

“Para ser sincero, eu gostaria de ter mais (munições), mas muita coisa foi entregue à Ucrânia por Biden”, disse Trump a repórteres a bordo do Air Force One, em 27 de julho.

Trump culpou Biden por crises internacionais ao redor do mundo pelo menos 138 vezes.

Essas críticas abrangem desde a Ucrânia e o Irã até a retirada dos EUA do Afeganistão e a postura considerada branda demais em relação à China.

Alfinetadas pessoais

Trump também fez diversas críticas pessoais a Biden em relação à sua agudeza mental e ao uso de um dispositivo de assinatura automática para assinar alguns documentos — uma prática adotada por muitos presidentes.

Enquanto estava sentado a uma mesa de piquenique assinando ovos durante o evento de Páscoa da Casa Branca em abril, Trump disse ao grupo de crianças ao seu redor que Biden “delegou tudo ao dispositivo de assinatura automática porque era incapaz de assinar, quanto mais de governar um país”.

Um dos pontos de destaque no tour que Trump oferece a convidados em sua “calçada da fama presidencial”, próxima ao Jardim das Rosas da Casa Branca, é uma exposição dedicada a Biden.

Enquanto outros presidentes são representados por fotos próprias, Biden é representado por uma imagem do dispositivo de assinatura automática.

Trump mencionou Biden até mesmo ao abordar questões locais, como a reforma do espelho d’água no National Mall, em Washington, alegando — sem apresentar provas — que os problemas do projeto decorrem de negligência durante a presidência do ex-presidente ou de esforços de reconstrução anteriores ao seu retorno ao cargo.

O espelho d’água permanece vazio, dois meses após a reforma inicial.

Trump atribuiu os problemas do projeto a vândalos, mas o Departamento de Justiça reconheceu, em agosto, que obras de reforma recentes e “defeituosas” causaram o descascamento da superfície — um problema relacionado a trabalhos realizados durante a administração de Trump.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/alvo-favorito-de-trump-biden-foi-mencionado-quase-900-vezes/