Agricultura regenerativa vira ativo para produtores e empresas

Programa criado pela agtech Produzindo Certo já alcança 50 mil hectares e pretende chegar a 4,5 milhões de hectares de soja até 2032.

Luciana Franco, , São Paulo

A agricultura regenerativa está deixando de ser apenas uma agenda ambiental e começa a se destacar como ferramenta de gestão, acesso a mercados e avaliação de riscos no agronegócio.

Neste contexto destaca-se o programa Reg.IA, lançado em 2024 como o primeiro consórcio de agricultura regenerativa da América Latina.

A iniciativa, que reúne produtores e empresas interessadas em estimular práticas como plantio direto com cobertura do solo, rotação de culturas e uso de produtos biológicos, já reúne cerca de 50 mil hectares de soja e milho cultivados por meio de práticas regenerativas.

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Nesta área, produtores já percebem a redução de aproximadamente um terço nas emissões de carbono em comparação com as médias nacionais dessas culturas.

Além da menor emissão de gases de efeito estufa, as propriedades participantes apresentam, em média, 63% mais estoque de carbono no solo em comparação com a média nacional dos grãos, de acordo com a agtech Produzindo Certo, idealizadora do programa.

Para a CEO da empresa, Aline Locks, a principal mudança para o produtor é a possibilidade de transformar as práticas adotadas dentro da propriedade em dados capazes de gerar valor para o produtor.

O programa ainda está em uma fase inicial diante da dimensão da agricultura brasileira, mas a Produzindo Certo estabeleceu uma meta de expansão significativa.

Entre 2028 e 2032 a empresa pretende levar o programa de agricultura regenerativa a aproximadamente 10% da soja produzida no país, o equivalente a cerca de 4,5 milhões de hectares, segundo Aline.

Para executiva, a adoção das práticas pode resultar em solos mais estruturados, maior resiliência em períodos de estresse climático e menor dependência de insumos externos.

A expectativa é de que esses benefícios econômicos ajudem a acelerar a adesão dos produtores.

O programa Reg.IA começou com a elaboração de um protocolo que estabelece quais práticas podem ser consideradas regenerativas e como sua adoção deve ser comprovada. O trabalho envolve assistência técnica, análise de solo, avaliação de carbono e acompanhamento dos talhões.

Ao final de cada safra, a Produzindo Certo produz um laudo para as propriedades participantes, reunindo os resultados obtidos.

A proposta é criar uma base de informações que permita ao mercado diferenciar a produção convencional daquela obtida com práticas regenerativas.

“É possível medir e levar o número exato da emissão daquela propriedade ou do estoque de carbono no solo daquela propriedade para aquele comprador”, conta Aline.

Segundo ela, essa informação interessa especialmente às empresas de alimentos, que buscam reduzir as emissões de suas cadeias de fornecedores. Nesse caso, os dados produzidos no campo podem ser incorporados à contabilização das emissões relacionadas à cadeia de valor das companhias.

A medição dos indicadores também abre outras possibilidades. A Produzindo Certo trabalha, por exemplo, com a perspectiva de que informações sobre a resiliência climática das propriedades possam ser utilizadas por seguradoras e instituições financeiras.

Isso porque uma propriedade com solo mais estruturado e maior capacidade de retenção de água pode apresentar comportamento diferente diante de eventos climáticos extremos. Essa é uma informação que pode ser relevante para a avaliação de risco.

“Entender o nível ou o índice de resiliência climática de uma propriedade é super importante para medir esse risco”, explica.

Segundo ela, bancos também têm interesse em conhecer esses indicadores, enquanto seguradoras podem utilizar as informações para desenvolver produtos mais aderentes às características de cada propriedade.

Eventos climáticos extremos

A discussão sobre agricultura regenerativa também ganha relevância diante da maior preocupação do setor com eventos climáticos extremos.

Isso porque em situações de falta ou excesso de chuva, por exemplo, propriedades com maior capacidade de retenção de água e solos mais estruturados podem apresentar maior resistência aos impactos climáticos.

“Em anos com extremos climáticos fica muito claro que as propriedades que adotam essas práticas têm maior resiliência”, afirma.

A avaliação, segundo ela, é que a agricultura regenerativa pode deixar de ser vista apenas como uma estratégia de sustentabilidade e passar a integrar decisões relacionadas à produtividade, risco, crédito, seguro e acesso a mercados.

A Produzindo Certo trabalha para aproximar produtores e empresas interessadas em comprar produtos com atributos socioambientais comprovados.

A ideia é que a rastreabilidade e a mensuração permitam identificar propriedades com menor emissão de carbono e práticas regenerativas e criem condições diferenciadas de mercado.

Para Aline, esse movimento ajuda a tirar a sustentabilidade do campo exclusivamente conceitual.

“Saímos um pouco desse romantismo quando falamos sobre as questões ambientais e de sustentabilidade. Aqui a gente vai para a prática, medindo impactos e mostrando para o produtor, com números, como isso reflete na propriedade”, diz.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/agricultura-regenerativa-vira-ativo-para-produtores-e-empresas/