Fabricação de vacina contra a dengue no Instituto Butantan. (Foto: ChatGPT sobre foto de Ricardo Stuckert/Presidência da República)

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O governo federal suspendeu provisoriamente, no dia 8, a aplicação em massa da vacina Butantan-DV, contra a dengue, desenvolvida pelo Instituto Butantan. O Ministério da Saúde investigará 42 casos de reações mais severas ao imunizante – desses, houve três casos mais graves, com duas mortes. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que “ainda não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre tomar a vacina e estes três casos graves, e dois óbitos, mas é um sinal de alerta”. É justamente para descobrir se há relação de causa e efeito que se conduz a investigação, e por isso o governo foi prudente em suspender a aplicação.

Os ditos “eventos adversos” (incluindo efeitos graves) não são exatamente inesperados quando se passa para a última fase de testes de um novo medicamento ou vacina, envolvendo grandes grupos – a Butantan-DV havia sido aplicada em meio milhão de pessoas. Há um sem-número de situações, que vão de doenças preexistentes a características genéticas, que podem levar um indivíduo específico a ter uma reação inesperada ao receber a vacina ou remédio. Se os laboratórios e autoridades sanitárias encontram a relação de causa e efeito, ela se torna uma contraindicação – um caso clássico é o de pessoas com alergia severa à proteína do ovo, que não podem tomar determinadas vacinas.

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A suspensão, portanto, não deve ser motivo de alarmismo – as 42 reações correspondem a 0,0084% do total de pessoas que receberam a vacina –, nem atestado da insegurança do imunizante. O problema, no entanto, não é esse, mas o clima de censura que, desde a pandemia de Covid-19, tomou conta do debate sobre vacinas no Brasil. Qualquer questionamento, inclusive aqueles vindos de especialistas no assunto, passou a ser tratado como “negacionismo” ou “fake news”, e quem ousa perguntar é imediatamente classificado como “anticiência”. É verdade que os “legistas de mídias sociais”, aqueles que usavam a falácia do post hoc ergo propter hoc para culpar a vacina da Covid por qualquer morte súbita de pessoas que haviam se imunizado contra o coronavírus, fizeram um grande mal ao debate. Mas igual ou maior dano fizeram aqueles que tentaram, de todas as maneiras, interditar qualquer discussão.

A própria suspensão da aplicação indica que, ao menos desta vez, não se está repetindo a neurose da pandemia. Naquela época, qualquer relato de possível evento adverso era imediatamente rechaçado como inverossímil, seguido de uma afirmação enfática e unânime, das autoridades e dos veículos de comunicação, sobre a segurança da vacina – uma atitude que, paradoxalmente, era bastante anticientífica; afinal, se absolutamente toda vacina ou medicamento tem efeitos colaterais e contraindicações, que isso não ocorresse com as vacinas contra a Covid seria uma autêntica maravilha do engenho humano. Mesmo assim, ainda que em menor escala, os ataques à liberdade de expressão já ressurgiram.

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Em meados de maio, a Justiça Federal do Rio de Janeiro ordenou o bloqueio completo das contas da médica Isabel de Fátima Alvim Braga, servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), nas mídias sociais da Meta (dona do Facebook e do Instagram). Nas publicações, ela questionava vacinas, pesquisas e outras atividades da fundação. Mesmo que algumas das críticas pudessem dar ensejo a um processo disciplinar interno (e ainda assim isso não seria isento de controvérsia), a decisão judicial, que cria censura prévia, evoca os piores dias da pandemia no que diz respeito à liberdade de expressão.

O infectologista Francisco Cardoso afirma que “o papel ético do profissional de saúde é apresentar posicionamentos, sejam favoráveis ou contrários a qualquer tratamento ou vacina, sempre com base em argumentos consistentes, sustentados por evidências técnico-científicas. Isso é o que qualifica o debate”. O combate a alegações estapafúrdias e teorias da conspiração é importante; no entanto, se ele extrapola para a perseguição e censura pura e simples contra quem apresente questionamentos técnicos, prejudica não só as liberdades básicas do cidadão, mas abala a credibilidade da própria ciência, quando a população passa a se perguntar que razões inconfessáveis estariam por trás da mordaça. “Quando as autoridades começam a se comportar como publicitárias de políticas públicas, hesitação vacinal é um dos frutos disso”, disse à Gazeta do Povo o jornalista e biólogo Eli Vieira. Só em um ambiente de liberdade a ciência pode se construir e conquistar confiança.

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