Durante a Copa do Mundo, não importa a sua preferência política, no fim todos acabarão torcendo pelo Brasil. (Foto: Imagem criada utilizando ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Fomos adestrados a nos repudiar com eficiência nos últimos anos. A única exceção ao ódio organizado tem data marcada e dura pouco. É o máximo de trégua que ainda conseguimos. E o nome dela é Copa do Mundo.

Não importa o que você pensa do futebol, se gosta, se considera uma distração perniciosa, se acha que apenas serve para dar um pouco de circo ao povo. Talvez você acredite que, se a seleção conquistar o hexa, isso ajudará o governo atual e, como você é oposição, prefere torcer contra. Ou talvez você acredite que, como a camisa da seleção ficou mais vinculada à direita – e você é de esquerda –, é melhor torcer contra.

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Se você é assim, como a esposa de João Saldanha, comunista de quatro costados, no seriado A Saga do Tri, disponível na Netflix, tenha certeza. Tenha certeza de que, se a seleção for avançando de fase, você se pegará torcendo também. Ainda que não conte pra ninguém. Ainda que seja apenas no seu íntimo distante, isolado, esquecido, incomunicável.

A Copa do Mundo reside naquele lugar intocado da alma brasileira em que panfletos políticos são deixados do lado de fora

É de lá que virá um grito estranho de alegria ou frustração quando marcarmos um gol. Como se você tivesse voltado a ser criança. Porque a Copa do Mundo não pede licença à nossa coerência intelectual. Ela reside naquele lugar intocado da alma brasileira em que panfletos políticos são deixados do lado de fora. Mora onde bandeirolas cobrem as ruas, o cheiro de asfalto pintado de verde e amarelo se mistura ao som de cornetas plásticas, rachando o silêncio do ponto facultativo.

O intelectual que escreve teses sobre a alienação do povo através do esporte é o mesmo que, aos quarenta do segundo tempo, sente um nó na garganta se o atacante chuta na trave. O militante que jurou boicotar o torneio se pega xingando o juiz em pensamento. É uma hipocrisia involuntária, inevitável e de-li-ci-o-sa.

Até tentamos transferir essa força gravitacional para outras coisas. Românticos dizem que a nossa música nos une. Mentira. A música nos divide em nichos, algoritmos e tribos incompreensíveis entre gerações. Cientistas políticos sugerem que o orgulho por conquistas institucionais deveria nos aproximar. Bobagem. Ninguém vai para a avenida estourar rojão porque a balança comercial fechou no azul ou porque batemos recordes de exportação de aeronaves.

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Temos fome de sermos os maiores do mundo em alguma coisa que não seja trágica. Cansados de liderar estatísticas de violência ou desigualdade, a Copa é o único espelho que nos devolve a imagem de uma realeza. Quando a seleção entra em campo, o Brasil não é um "país em desenvolvimento". É a potência hegemônica. Ainda é; somos.

Precisamos do espetáculo, do drama comungado, do épico vivido, do mitológico restaurado. Só uma Copa do Mundo nos proporciona isso. Que venha o hexa, que venha a trégua. Precisamos dele, precisamos dela. Mais do que nunca, como sempre.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/francisco-escorsim/copa-do-mundo-tregua-politica/