As tragédias de Mariana e Brumadinho marcaram um ponto de inflexão na mineração brasileira.

Desde então, o setor passou por uma primeira onda regulatória voltada ao descomissionamento de barragens construídas pelo método a montante.

Agora, com o avanço das discussões da Agência Nacional de Mineração sobre pilhas de estocagem, vivemos uma segunda onda focada no fortalecimento das exigências de projeto, monitoramento, estabilidade e gestão de riscos.

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Há também uma terceira onda em curso, menos visível, mas potencialmente transformadora. Trata-se da conversão de rejeitos em recursos minerais, econômicos e estratégicos.

Essa mudança vai além da conformidade regulatória. Ela propõe uma nova forma de enxergar materiais que, durante décadas, foram tratados apenas como passivos a serem armazenados com segurança. A segurança continua indispensável, mas é preciso avaliar que valor ainda existe nesses materiais e como recuperá-lo de forma segura, viável e ambientalmente responsável.

Em muitos casos, rejeitos e estéreis contêm minerais que não foram recuperados pelos processos disponíveis à época da operação original. Com o avanço da caracterização mineralógica, do processamento mineral, da hidrometalurgia, da
automação e das tecnologias digitais, esses depósitos podem ser reconhecidos como potenciais minérios secundários.

A recuperação de terras raras é um exemplo relevante. Esses elementos são essenciais para ímãs permanentes, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética.

Dependendo da geologia e do histórico de processamento de cada operação, rejeitos de cobre podem conter ouro e prata, enquanto rejeitos de minério de ferro podem apresentar manganês, vanádio, terras raras ou minerais industriais de interesse.

Naturalmente, nem toda pilha ou barragem possui material economicamente recuperável.

Cada caso exige investigação geológica, caracterização técnica, testes metalúrgicos, avaliação ambiental e estudos de viabilidade. Ainda assim, o potencial é significativo. Depósitos já existentes podem guardar valor mineral remanescente e
reduzir a necessidade de novas áreas de extração.

A terceira onda também envolve o reaproveitamento de materiais como insumos para outras cadeias produtivas. Após processamento adequado e atendimento aos requisitos técnicos, ambientais e de segurança, rejeitos minerais podem ser utilizados em pavimentação, construção civil e outras aplicações industriais.

Soluções com aglomerantes e técnicas de estabilização também podem melhorar as propriedades dos materiais e contribuir para a segurança geotécnica das estruturas.

Essa é a lógica da mineração circular. Reduzir desperdícios, utilizar melhor os recursos naturais e transformar materiais antes descartados em produtos, insumos ou novas fontes minerais.

Os benefícios são claros

A recuperação e o reaproveitamento podem reduzir volumes estocados e riscos operacionais, criar receitas e novas oportunidades de negócio, fortalecer o desempenho ambiental das empresas e diminuir a pressão sobre jazidas virgens e novas áreas de mineração.

Esse último ponto é especialmente importante. Se minerais críticos puderem ser recuperados de rejeitos já depositados, parte da demanda global poderá ser atendida com menor impacto territorial e ambiental.

Da mesma forma, se materiais processados puderem substituir agregados naturais em determinadas aplicações, será possível reduzir a extração de novos recursos.

Para o Brasil, essa agenda tem relevância estratégica. O país possui tradição mineral, capacidade técnica e um vasto conjunto de depósitos oriundos de operações históricas.

Ao combinar conhecimento geológico, engenharia de processos, inovação tecnológica, inteligência artificial e economia circular, o Brasil pode transformar passivos históricos em ativos para a nova economia.

As empresas que investirem nessa direção estarão mais bem posicionadas para atender às exigências regulatórias, reduzir riscos e participar da crescente demanda por minerais críticos.

Uma estrutura que hoje exige recursos permanentes para monitoramento e manutenção pode, no futuro, incorporar uma frente de recuperação mineral, produção de novos insumos e geração de valor compartilhado.

Também há uma oportunidade importante para os territórios mineradores. Municípios como Itabira, Mariana, Congonhas, Itabirito e Nova Lima podem avançar de uma economia baseada predominantemente na extração para polos de pesquisa, processamento avançado, inovação e recuperação mineral.

Isso demanda profissionais capazes de integrar segurança geotécnica, processamento mineral, hidrometalurgia, sustentabilidade, viabilidade econômica e desenvolvimento territorial.

A mineração do futuro não será definida apenas pelas tecnologias disponíveis, mas pela capacidade de pessoas e instituições de reimaginar o que hoje parece ser apenas um problema.

O Brasil está diante de uma oportunidade decisiva. O aprimoramento regulatório em curso não deve ser visto apenas como obrigação burocrática, mas como uma ocasião para construir uma mineração mais segura, resiliente, inovadora e alinhada às demandas do século XXI.

A terceira onda já começou. Ela está nas tecnologias que recuperam minerais de rejeitos, nos materiais que retornam à economia como novos insumos e, principalmente, nas pessoas capazes de enxergar um minério secundário onde antes
havia apenas descarte.

*Rinaldo Mancin é engenheiro, Mestre em Desenvolvimento Sustentável (CDS/UnB), Consultor em Mineração e Sustentabilidade, foi Diretor por 20 anos do Instituto Brasileiro de Mineração.

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Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/a-terceira-onda-da-mineracao-quando-os-rejeitos-viram-recursos/