O debate sobre a virtude na política – em contraposição ao expediente bruto de conquista de poder – é provavelmente tão antigo quando o ser humano. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Se você está a fim de fazer a coisa certa, busque uma cruzadinha; lá sem dúvida você encontrará uma linha perfeita separando o correto do incorreto, e poderá regozijar-se em assinalar sempre a solução única e ideal para os seus problemas.

Agora, se o seu objetivo é derrotar a esquerda e acabar com a ameaça neocomunista que avança sobre a nossa liberdade; se o seu objetivo é sobreviver ao avanço totalitário do progressismo, então a sua meta deve ser unicamente vencer a disputa pelo poder. E para vencer você precisará de candidatos que, quase sempre, falharão em corresponder ao exemplo de desprendimento e moral imaculada com que você sonhou durante a adolescência.

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O que me atrai em Górgias é que ele nos permite concluir uma verdade dura para quem não está acostumado com a realidade da política: ela nunca foi, não é, e jamais será um espaço de exercício moral

Esse debate sobre a virtude na política – em contraposição ao expediente bruto de conquista de poder – é provavelmente tão antigo quando o ser humano; não duvido de que, ainda nas cavernas, discutiu-se esse tipo de assunto: é prudente nosso líder aceitar essas castanhas de outras tribos? É correto prometer um mamute para cada família? Será que devemos mesmo renegar o nosso melhor caçador unicamente porque ele desviou a fogueira para mais perto da caverna dele?

Em épocas menos longínquas, Platão discutiu esse tema em seu diálogo Górgias, em que Sócrates e Cálicles debatem sobre a real natureza do poder e da política. Sócrates entende que a política é um espaço de virtude, em que se deve buscar o aprimoramento moral, e que o político deve ser justo e autocontido. Cálicles, no entanto, defende uma posição no outro extremo, entendendo a política como o poder pelo poder, e exaltando o político que consegue evadir-se de qualquer tipo de prestação de contas frente aos demais.

Como costuma ocorrer nesses debates platônicos, as posições são um tanto estilizadas para demonstrar a antítese: de um lado a busca idealista por uma sociedade moral em que os cidadãos buscam fazer sempre o bem, e do outro a afirmação realista de que o mundo da política trata unicamente de poder sem qualquer limitação.

O que me atrai em Górgias é que ele nos permite concluir uma verdade dura para quem não está acostumado com a realidade da política: ela nunca foi, não é, e jamais será um espaço de exercício moral. A partir do momento em que adversários comecem a utilizar as piores estratégias para a conquista de poder, será quase impossível vencê-los sem adotar estratégias similares.

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Isso não significa, evidentemente, que tudo seja aceitável, até porque uma solução pode acabar-se demonstrando pior do que o problema que visa a enfrentar. Devemos sempre analisar a totalidade das circunstâncias: qual é a gravidade da ameaça que enfrentamos? Se estou na emergência e preciso de um médico, devo recusar um médico que tenha, por exemplo, fraudado uma licitação?

Diante da gravidade da situação, essa preocupação com a imoralidade do médico seria pueril, e certamente narcisista: veja só como eu, apenas eu, sou capaz de me prejudicar para recusar associar-me a uma imoralidade! Ora, mas se é para um bem muito maior (como salvar uma vida), associar-se ao médico imoral é o correto a se fazer, inclusive moralmente. Ou a vida vale menos que o ego? O problema é que, no Brasil, muita gente encara a política como um espaço de expressão de sua identidade; e que, assim, confunde vaidade com defesa de princípio.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/gustavo-maultasch/a-pureza-e-o-realismo-na-politica/