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“O impulso de criar uma obra de arte é percebido quando em determinadas pessoas a reverência passiva causada por entes ou eventos sagrados é transformada em desejo de expressar tal reverência através de um rito de adoração ou homenagem e, para ser uma homenagem condigna, esse rito deve ser belo.” (W.H. Auden)
Caso o leitor não saiba, tenho um Clube do Livro. Uma vez a cada seis meses escolho quatro obras literárias – somente literatura, entre romances, novelas, contos e peças teatrais –, abro inscrições e aqueles que desejam me acompanhar nesse percurso, de ler e refletir sobre grandes obras e escritores, não se arrependem. E digo isso sem parecer pretensioso, mas provo o que digo pelo fato de 80% das pessoas que hoje fazem parte do Clube estarem comigo desde a primeira turma; e estamos indo para a nona.
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Publicado em 2026-06-16 00:01:02Na escolha das obras sempre busco pela diversidade. Quero dizer com isso que procuro autores e obras de lugares e com características bastante distintas, a fim de termos uma amplitude de visões e estilos que enriqueçam a nossa experiência ao máximo. Um romance russo é bastante diferente de uma poema épico; há um abismo entre uma peça do teatro elisabetano e uma prosa poética contemporânea. Mas todas elas têm em comum o labor do gênio criativo, do labor vocacional dos grandes escritores. Como bem nos expõe Unamuno, em Como escrever um romance, diante do desafio maior de um escritor:
“Eis-me aqui diante das folhas em branco – brancas como o negro futuro: brancura terrível! – procurando parar o tempo que passa, fixar o hoje fugidio, eternizar-me ou imortalizar-me, enfim – embora eternidade e imortalidade não sejam uma só e mesma coisa. Eis-me aqui diante destas folhas em branco, meu futuro, procurando derramar minha vida, arrancar a mim mesmo da morte de cada instante. Procuro, ao mesmo tempo, me consolar de meu desterro, do desterro de minha eternidade, deste desterro que prefiro chamar de meu des-céu.”
A inteligência artificial seria – e será – capaz de emular sensações expostas poeticamente por um escritor, mas não será capaz de senti-las; e isso faz toda a diferença
Óbvio que um ente computacional, dotado de um moderno mecanismo de inteligência artificial (IA), seria – e será – capaz de emular as sensações expostas tão poeticamente por Unamuno, mas não será capaz de senti-las; e isso, no fim das contas, faz toda a diferença, porque, diante de um escritor real, sentimo-nos irmanados à sua dor, solidários ao seu esforço, partícipes de sua solidão criativa. A humanidade nos une.
Nas palavras de Toni Morrison – em seu brilhante ensaio “Literatura e vida pública” –, “a literatura ficcional pode ser (e eu acredito que seja) a última e única via para a recordação, a última barreira no processo de esvaziamento da consciência e da memória”. E aqui consciência não pode ser separado de memória, pois um ente computacional pode ter memória, mas jamais terá consciência.
Voltando ao meu Clube do Livro, esse semestre lemos Sula, de Toni Morrison; Três Anos, de Anton Tchekhov; Os Mortos, de James Joyce; e A obscena senhora D., da poetisa brasileira Hilda Hilst. Como todas as obras, à exceção de Sula, são contos longos, inseri a peça Assassínio na Catedral, de T.S. Eliot, para fecharmos o semestre. Dificilmente uma lista será mais diversa que essa. Mas quero me ater por um momento à obra que lemos recentemente, a prosa-poética de Hilda Hilst, cujo encontro on-line de análise ocorreu no último fim de semana.
VEJA TAMBÉM:
Hilda Hilst foi uma das escritoras mais originais da literatura brasileira do século 20. Nascida em Jaú (SP) e falecida em Campinas (SP), formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, mas dedicou praticamente toda a sua vida à literatura. Sua obra abrange diversos gêneros – poesia, teatro, ficção experimental e textos de forte teor erótico – e é marcada pela investigação de temas como a morte, Deus, o desejo, a loucura e os limites da linguagem. Embora tenha recebido alguns dos mais importantes prêmios literários do país, permaneceu relativamente distante do grande público, mas sua obra tem sido cultuada desde sempre, sobretudo, pelos amantes de poesia.
Publicado em 1982, A obscena senhora D. é uma das obras centrais da maturidade literária de Hilda Hilst. Trata-se de uma narrativa breve (um conto longo ou uma novela curta), porém extremamente densa. Nela acompanhamos Hillé, a “Senhora D.” – de Derrisão, segundo a própria –, uma mulher que passa a morar embaixo da escada de sua casa e, após a morte do marido, Ehud, passa a confrontar obsessivamente questões relacionadas à morte, à identidade, ao envelhecimento, a Deus, à memória e aos limites da linguagem. É uma obra construída de forma fragmentária e marcada pela fusão entre prosa, poesia e reflexão filosófica. Hilst abandona a narrativa tradicional para acompanhar o fluxo de uma consciência de uma pessoa que parece buscar compreender aquilo que escapa a toda compreensão.
Nosso encontro sobre a obra foi riquíssimo. Nele mergulhamos não só nas profundas reflexões dessa complexa personagem, mas também na forma, na escrita belíssima de Hilda Hilst, que consegue transformar verdadeiros delírios emocionais em catarse poética de altíssimo nível. Não há parágrafos nem pontuação lineares, de modo que precisamos penetrar nesse mar revolto que são as palavras da Senhora D. O início da obra é uma espécie de sinopse do que nos aguarda:
“Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês”
Uma pseudointeligência jamais escreverá, de fato, um romance ou um poema. O que ela fará é emular tecnicamente nosso legado
Novamente: uma IA poderá emular o estilo de Hilda Hilst e escrever tão bem quando ela. Mas jamais será capaz de compreender o que, de fato, está ocorrendo na personagem – e o que ocorre conosco – diante de uma confissão como essa:
“Tens uma máscara, amor, violenta e lívida, te olhar é adentrar-se na vertigem do nada, iremos juntos num todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, porisso falo falo, para te exorcizar, porisso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros dos abismos, um nascível irrompe nessa molhadura de fonemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia
melhor calar quando teu nome é paixão”
Uma máquina jamais saberá como é lutar contra nossas contradições e imperfeições. Uma pseudointeligência jamais escreverá, de fato, um romance ou um poema. O que ela fará é emular tecnicamente nosso legado, transformá-lo em zeros e uns, reconstruí-lo com suas possibilidades infinitas de combinação, e nos devolver o que nós mesmos lhe fornecemos, só que sem o mais importante: o drama existencial do processo criativo.
Volto a Toni Morrison e encerro, desejando que essa frase final ecoe como uma oração em sua consciência, nobre e resistente leitor: “A literatura nos permite – mais do que isso, nos exige – a experiência de sermos pessoas multidimensionais. E, por isso, se torna mais necessária do que jamais foi”.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos