A hora de falarmos de mobilidade urbana
Em artigo à CNN Infra, André Salcedo argumenta que "a mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social"
A infraestrutura brasileira vive uma nova etapa de transformação. Depois de avanços importantes em áreas como logística, energia, saneamento e conectividade, chegou o momento de a mobilidade urbana ocupar o centro da agenda de desenvolvimento do país.
Essa mudança responde à realidade das cidades brasileiras. Hoje, mais de 85% da população vive em áreas urbanas e o crescimento dos grandes centros exige investimentos capazes de reduzir tempos de deslocamento, ampliar o acesso às oportunidades e aumentar a produtividade. A mobilidade deixou de ser apenas uma política de transporte para se tornar uma estratégia de desenvolvimento econômico e social.
Dois acontecimentos recentes simbolizam esse novo momento: O lançamento do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES em parceria com o Ministério das Cidades, e a aprovação do Marco Transporte Público Coletivo (Lei nº 15.432/2026) representam um avanço importante na forma como o Brasil passa a enxergar o setor. O estudo oferece uma visão estruturada de longo prazo para a expansão da mobilidade urbana. A nova legislação fortalece a segurança jurídica, moderniza o ambiente regulatório e amplia a previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo.
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Publicado em 2026-07-30 07:00:06Os números ajudam a dimensionar essa oportunidade. O ENMU identificou 187 projetos estruturantes em 21 regiões metropolitanas, com potencial de investimentos superior a R$ 400 bilhões. A rede brasileira de transporte coletivo de alta capacidade poderá passar dos atuais 1.933 quilômetros para 4.370 quilômetros de extensão.
Mais do que ampliar a infraestrutura, essa expansão significa aproximar pessoas do emprego, da educação e dos serviços públicos, impulsionar o desenvolvimento urbano, aumentar a produtividade das cidades e reduzir emissões. Investir em mobilidade é investir na competitividade do Brasil.
O país já demonstra que esse movimento começou. São Paulo concentra hoje o maior ciclo de investimentos em mobilidade urbana do país, com projetos de expansão metroferroviária, modernização da infraestrutura existente, novas concessões e integração entre diferentes modais. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que esse potencial se estende às principais regiões metropolitanas brasileiras, criando uma agenda nacional para o setor.
Também não partimos do zero. O Brasil acumulou experiência na estruturação de concessões, na implantação e operação de sistemas sobre trilhos e na construção de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada. Esse conhecimento representa um ativo importante para acelerar uma nova geração de projetos.
Durante muito tempo, a infraestrutura brasileira foi medida pela capacidade de integrar o território nacional, ampliar a malha logística, modernizar aeroportos, fortalecer a matriz energética e expandir a conectividade. Nas próximas décadas, ela também será medida pela capacidade de transformar as cidades em ecossistemas integrados e sustentáveis, universalizar serviços essenciais, ampliar a mobilidade urbana e conectar pessoas às oportunidades.
Nesse contexto, os trilhos deixam de representar apenas um modo de transporte para ocupar um lugar estratégico no desenvolvimento do país.
*André Salcedo é presidente da Plataforma de Trilhos da Motiva.