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A obsessão com máquinas de votação ou cédulas de papel nas urnas banaliza as denúncias e esconde a verdadeira vulnerabilidade das democracias latino-americanas: o controle das candidaturas, da informação, da logística e das regras do jogo. Por causa disso, quase que na totalidade das vezes, o grito de fraude eleitoral virou palavra de perdedor.
Basta perder uma eleição para que algum candidato, partido ou influenciador descubra, subitamente, que as urnas eram suspeitas, o sistema estava programado e uma conspiração internacional havia escolhido o vencedor com antecedência. Não importa se o país usa cédulas de papel, máquinas eletrônicas ou uma combinação dos dois. A derrota passou a ser tratada como prova do crime.
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Publicado em 2026-06-18 16:10:23
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Publicado em 2026-06-18 16:02:24A direita faz isso. A esquerda também. Em comum, ambas produzem o mesmo estrago: transformam uma acusação gravíssima em uma retórica que esvazia o problema real. Quando tudo é fraude, nada mais é fraude. E para que então eleição se elas não servem para nada? Isso é uma capitulação que faz mal a um dos pilares da democracia. Pilar esse que está, sim, sob ameaça, mas não pela maneira que muitos querem que pensemos que esteja.
A banalização esvazia o debate público, alimenta a indústria digital da indignação e polarização e destrói a capacidade de distinguir uma eleição apertada de uma eleição manipulada. O derrotado ganha uma desculpa. O vencedor perde legitimidade. E os verdadeiros fraudadores recebem o melhor dos presentes: uma cortina de fumaça.
Tenho observado o caos eleitoral da América Latina e tenho uma sensação de que o erro está em imaginar que uma eleição se resume aos minutos passados diante da urna. O voto é apenas o capítulo final de um processo que começa meses antes. A integridade eleitoral depende de quem pode concorrer, de quem pode falar, das regras impostas às campanhas, da liberdade da imprensa, da logística dos locais de votação, da fiscalização, da cadeia de custódia das atas e da transparência da apuração.
Estou convencido que é justamente no processo que se encontra a fraude moderna.
Nem toda derrota é roubo. Nem todo sistema oficialmente auditado é necessariamente justo
A caricatura da fraude eleitoral ainda é a de um sujeito trocando cédulas durante a madrugada ou a de um hacker misterioso reprogramando máquinas de votação. Essas coisas podem acontecer. Mas os autocratas e engenheiros políticos mais eficientes já compreenderam que não precisam alterar votos depois que eles são depositados. É muito mais seguro controlar as condições sob as quais serão depositados. Assim, o resultado na urna pode estar limpo dentro de um processo sujo.
A Venezuela oferece o exemplo mais completo. Nicolás Maduro não precisou lançar mão de feitiçaria eletrônica para tentar permanecer no poder depois da eleição presidencial de 2024. As próprias máquinas emitiram comprovantes impressos com os resultados de cada seção. A oposição organizou uma operação nacional para recolher essas atas e publicou a contabilidade que o regime pretendia esconder.
O sistema de votação registrou o que aconteceu e daí? Quem se recusou a reconhecer o resultado foi o regime. Os votos muito bem registrados (exemplarmente diga-se) são uma alegoria em um sistema no qual a eleição é verniz para acalmar os críticos.
Mas muito antes desse ato extremo de declarar um resultado irreal, o chavismo já havia definido um modelo de fraude pré-eleitoral espetacular, no sentido mais sóbrio possível. Perseguiu dirigentes, impediu candidaturas, controlou instituições, restringiu a imprensa e usou a máquina estatal contra a oposição. Além disso usou suas milícias e grupos paramilitares para coagir e levar os funcionários, públicos, beneficiários de programas sociais e moradores de áreas sob controle do crime organizado a votar pelo regime. Na Venezuela, o voto não é obrigatório e o povo não acredita no sigilo do voto. Esse medo se transformou em arma que Hugo Chávez e depois maduro usaram por anos para forçar o voto neles.
As urnas eram auditadas e sempre mostravam vitórias sólidas. “Não havia fraude”. Claro que não, pois a forma de roubar as eleições se dava antes de o eleitor chegar para votar.
Na Bolívia, em 2019, Evo Morales também demonstrou que a preparação do terreno é mais importante do que a operação no dia da votação. Antes de disputar seu quarto mandato consecutivo, Morales ignorou o resultado de um plebiscito no qual os bolivianos haviam rejeitado uma nova reeleição. O obstáculo constitucional foi removido por um tribunal alinhado ao governo, sob o argumento criativo de que concorrer indefinidamente seria um direito humano. Isso é fraude e a idoneidade da eleição começou comprometida antes que o primeiro voto fosse depositado.
O Peru de 2026 revelou outra dimensão do problema: a logística. No primeiro turno, dezenas de milhares de eleitores foram impedidos de votar porque centenas de mesas não foram instaladas em locais de votação, sobretudo em Lima. Um problema inexplicável, pois, a capital é o local mais fácil de operar e não haveria razão alguma para o problema logístico. Mas Lima era o coração eleitoral de Rafael López Aliaga, o candidato direitista que liderava as pesquisas.
As autoridades eleitorais estenderam o direito de voto por um dia, mas o efeito foi devastador. Com a apuração em curso, muitos eleitores simplesmente desistiram de comparecer ou votaram condicionados por uma apuração em curso. Em uma sociedade extremamente polarizada que via o risco do ultrarradical de esquerda Roberto Sánchez chegar ao segundo turno, pode ter preferido votar em Keiko Fujimori, que acabou se beneficiando de toda a trapaça que sabe Deus porque foi engendrada.
No Brasil, o debate sobre as eleições de 2022 foi sequestrado pela obsessão com a urna eletrônica. Jair Bolsonaro e seus apoiadores passaram anos levantando suspeitas. Concordo que o voto impresso seria um upgrade e tanto para nossa integridade eleitoral. Mas sejamos sinceros. Com as regras vigentes e com a imparcialidade judicial teria feito alguma diferença de fato?
Durante a campanha, sob o argumento de proteger a Democracia, o Tribunal Superior Eleitoral determinou remoções de conteúdos, concedeu direitos de resposta em ritmo acelerado e assumiu um papel cada vez mais ativo na administração do discurso político. Mas apenas de um dos lados da disputa.
A discussão de fraude não deve se concentrar apenas na integridade dos votos, mas no processo acima de tudo. Examinar se as regras foram aplicadas de forma simétrica, se instituições públicas atuaram dentro de seus limites e se todos os eleitores e candidatos receberam o mesmo tratamento.
É por isso que gritar “fraude” diante de qualquer derrota não protege a democracia. Ao contrário, ajuda a destruí-la. O candidato que recorre a esse recurso de denúncia sem provas, como as apresentadas pelos opositores venezuelanos, desmoraliza as denúncias verdadeiras. Faz com que a sociedade pare de ouvir justamente quando deveria prestar atenção.
A defesa da integridade eleitoral exige abandonar tanto a ingenuidade quanto a paranoia. Nem toda derrota é roubo. Nem todo sistema oficialmente auditado é necessariamente justo. Nem toda fraude tem escala para alterar o resultado. Mas nenhuma democracia deve ser avaliada apenas pela máquina que soma os votos.
É preciso auditar o processo inteiro: o acesso às candidaturas, a independência das instituições, a liberdade de expressão, o uso da máquina pública, a logística, a fiscalização, as atas e a publicação dos resultados. O Brasil ia mais ou menos bem nisso, mas se perdeu no caminho.
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