Ouça este conteúdo
Pouco antes de cada apito inicial, Carlo Ancelotti leva a mão ao paletó e retira de lá um santinho. Beija a imagem duas vezes e a recoloca no bolso. O rosto impresso no papel é o de São Pio de Pietrelcina, o frade capuchinho que carregou nas mãos, nos pés e no peito as chagas da Paixão durante meio século. Na tarde desta segunda, antes da vitória do Brasil sobre o Japão, o gesto discreto se repetiu.
A devoção não nasceu no banco da Seleção. Nasceu na Itália, na virada dos anos 1990 para os 2000, quando Ancelotti treinava a Juventus. Um amigo ligado ao clube o levou a Pietrelcina, no interior de Benevento, para conhecer a cidade onde o santo nasceu e o quarto em que viveu. O técnico, criado numa família de camponeses católicos de Reggiolo e formado em colégios salesianos, voltou tocado. Desde então peregrina todo ano a San Giovanni Rotondo, onde repousam os restos mortais do frade, para rezar e agradecer diante do túmulo.
Recomendamos para você
Ancelotti explica opção por Endrick contra o Japão: “Fez um jogo muito bom”
Treinador da Seleção Brasileira falou sobre a entrada do jovem atacante na classificação às oit...
Publicado em 2026-06-29 18:07:58
Ancelotti sobre o empate até o fim em Brasil x Japão: “Estava confiante”
Treinador afirma que aspecto psicológico é essencial e elogia postura da equipe mesmo atrás do pl...
Publicado em 2026-06-29 17:51:49
Brasil supera Japão à moda do Real Madrid de Ancelotti; entenda
Após vitória dramática sobre o Japão, treinador italiano celebra a resiliência da Seleção e r...
Publicado em 2026-06-29 17:27:39Sem misturar as coisas
Francesco Forgione tinha quinze anos quando entrou para os capuchinhos e trocou o nome de batismo pelo de Pio. Em setembro de 1918, no convento de Santa Maria delle Grazie, apareceram em seu corpo os estigmas, feridas abertas que sangrariam pelos cinquenta anos seguintes e só desapareceriam com a morte, em 1968. Em vida atraiu multidões ao confessionário e relatos de curas que a medicina da época não soube explicar. João Paulo II o canonizou em junho de 2002, diante de cerca de trezentas mil pessoas na Praça de São Pedro.
Há um detalhe que o próprio Ancelotti talvez aprecie. Em 1948, um jovem padre polonês chamado Karol Wojty?a ajoelhou-se no confessionário de San Giovanni Rotondo para se confessar com o frade. Três décadas depois, já conhecido como papa João Paulo II, seria ele a proclamar santo o homem que um dia o ouvira.
Quando algum jogador insiste em saber por que beija a imagem antes das partidas, e se ali vai embutido um pedido de vitória, o treinador levanta a sobrancelha. Jamais reza por futebol, responde. "Deus tem coisas melhores e mais importantes para fazer", disse ele ao site Aleteia, em 2014. "O nosso é um jogo e depende de nós; se treinarmos bem, tudo correrá como previsto. Creio nele e rezo todos os dias, mas pelas coisas ao meu redor, não pelo futebol."
Numa Copa em que torcedores empilham novenas e promessas em troca de um resultado, o italiano trata a própria fé como algo que não entra em campo. O santinho não é amuleto nem barganha. "Fascina-me a vida de Padre Pio; na Itália cultivamos uma grande devoção por ele, fez muitos milagres e toda a sua vida me comove", explicou, quando perguntado sobre o que de fato o atrai no santo.
Santo Antônio e o capuchinho
O Brasil entendeu o recado antes mesmo de a Copa começar. Em outubro, minutos antes da goleada de 5 a 0 sobre a Coreia do Sul, a CBF e a Nike presentearam Ancelotti com um kit pensado para unir sua devoção à de Mário Jorge Lobo Zagallo, que levava no bolso uma imagem de Santo Antônio em todas as Copas. Havia um escapulário com as faces dos dois santos, um agasalho no modelo que Zagallo imortalizou em 1998, agora com as iniciais C.A., e um tênis gravado com as palavras "Serenità" (serenidade, em italiano) e "Fé". O técnico, conhecido pela frieza à beira do gramado, se emocionou.
A cena diz algo sobre o país que o contratou. Aqui o futebol há muito divide espaço com a sacristia, e o primeiro treinador estrangeiro a comandar a Seleção numa Copa chegou trazendo no bolso justamente o objeto que o torcedor reconhece de imediato. Zagallo levava o seu Santo Antônio para lhe confiar as Copas. Ancelotti beija o seu Pio para se lembrar de quem é, e não cobra do frade nenhum placar.