Assembleia Geral da ONU em encontro registrado em outubro de 2022 (Foto: Rick Bajornas/UN Photo)

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A decisão da ONU de incluir entidades israelenses em uma lista de monitoramento relacionada à violência sexual em conflitos armados marca um ponto de ruptura na relação entre Israel e a organização.

A resposta israelense foi imediata. O governo anunciou o congelamento das relações com o gabinete do secretário-geral António Guterres, acusando as Nações Unidas de colocar Israel “na mesma lista do Hamas”. O episódio expõe algo mais profundo do que um atrito diplomático: uma crise de credibilidade do próprio sistema multilateral.

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A controvérsia ganhou força justamente no momento em que a organização UN Watch divulgou um relatório explosivo sobre direitos humanos da ONU. Intitulado From Watchdogs to Ideologues, o documento acusa parte dos relatores especiais da entidade de ter abandonado a postura de observadores independentes para atuar como militantes políticos.

Instituições multilaterais só conseguem funcionar quando diferentes lados – inclusive democracias sob ataque terrorista – acreditam que serão julgados pelos mesmos critérios aplicados ao restante do mundo

O relatório analisa 13 dos 59 relatores especiais atualmente ligados ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e revela que alguns desses especialistas teriam mantido vínculos políticos, financeiros e/ou institucionais com governos autoritários e organizações ideologizadas, concentrando atenção desproporcional sobre democracias. O documento aponta que mecanismos originalmente criados para proteger direitos humanos estariam se transformando em instrumentos de ativismo político internacional.

A própria UN Watch não é neutra. A organização é conhecida por monitorar aquilo que considera vieses anti-Israel dentro da ONU. Mas as críticas à imparcialidade da organização vão além de grupos pró-Israel. Nos últimos anos, o Conselho de Direitos Humanos da ONU vem sendo criticado por abrigar entre seus membros governos acusados de repressão, censura e perseguição política. Paralelamente, cresce a percepção de que democracias liberais são submetidas a níveis de escrutínio muito mais intensos do que regimes autoritários, que frequentemente escapam de condenações proporcionais.

Organismos internacionais têm a obrigação de apurar violações de direitos humanos onde quer que existam. O problema começa quando parte relevante da comunidade internacional passa a acreditar que os critérios de investigação deixaram de ser universais para se tornarem seletivos.

Desde os ataques de 7 de outubro de 2023, Israel vem acusando instituições multilaterais de minimizar ou relativizar crimes cometidos pelo Hamas, enquanto ampliam acusações contra o Estado israelense. Ao mesmo tempo, denúncias envolvendo abusos contra palestinos, prisões arbitrárias e alegações de violência sexual atribuídas a agentes israelenses ganharam enorme repercussão internacional antes de verificações independentes conclusivas. A consequência é a erosão da confiança – um ativo central de qualquer organização internacional.

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Sem ela, relatórios deixam de ser percebidos como instrumentos de proteção universal dos direitos humanos e passam a ser vistos como armas políticas na disputa geopolítica.

Essa transformação é perigosa para a arquitetura internacional do pós-guerra. Porque instituições multilaterais só conseguem funcionar quando diferentes lados – inclusive democracias sob ataque terrorista – acreditam que serão julgados pelos mesmos critérios aplicados ao restante do mundo. Quando essa percepção desaparece, não estamos diante apenas de um impasse diplomático, mas de uma crise de credibilidade institucional.

E instituições internacionais podem sobreviver a críticas. Mas raramente sobrevivem à perda de confiança.

Nira Broner Worcman é jornalista, CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de “Enxugando Gelo” (2025), sobre a cobertura midiática da guerra entre Israel e grupos terroristas.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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